sábado, 21 de julho de 2007


Hoje meu avô está na UTI da Beneficiência Portuguesa. Sua condição? Foi desenganado pelos médicos. Porém, não é uma história trágica, é uma história comum. Hoje ele tem noventa anos completos em março último. Minha avó, Joana Thenório, dona de um nome que corresponde ao seu caráter, está desolada. Mesmo sendo compreensivel e anunciada sua morte, dadas a idade avançada e as condições de saúde do meu avô, ela, minha vó, continua apegada e em negação, não aceitando os fatos que se dão, mesmo sendo outro corpo que ela terá que enterrar, depois de tantos outros.
Foram cinquenta anos de casamento, o primeiro dela, o segundo dele.
Em 1984, ano do meu nascimento, minha vó foi diagnosticada com cancêr de mama. Ela passou por essa dura época sozinha longe de casa, teve que fazer a cirurgia e o tratamento radio e quimio-terápico sem a presença de parentes. As filhas eram muito novas, o marido, meu avô, tinha que trabalhar e cuidar dos filhos.
Enquanto ela sofria os traumas severos do tratamento, ele arrumou uma amante. Sabe lá quantas outras foram, essa era alguma. Era uma vizinha. Não sei mais detalhes disso. Todas as filhas sabem dessa história - e de outras - e ressentem o pai por isso. Desconfio também que a minha avó saiba, mesmo permanecendo não dito pela família.
Penso que esse texto seja sobre ressentimento, mágoa, coisas assim. Por muitas vezes vi nos olhos dela o desamor e o desafeto de alguém que consumiu tanto a sua vida, contudo tudo isso importa tão pouco hoje. Ela vai, misericordiosamente, todo santo dia visitá-lo, mesmo, talvez, ele não entendendo mais o que se passa.
Depois de noventa anos vividos, todas as guerras do séc. XX vistas, todas as mudanças cotidianas, da privada ao celular, tudo, quase todos os presidentes, duas capitais, tantos nomes, tantas mulheres, tantas saias, tanto desgosto, tantos enterros, e depois de tudo, penso o quão desnecessário seja ressentir.
O luto desculpa tudo, todos os erros.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Os alumbramentos do corpo e a arte de amar



O que é o amor? Será que eu sei? Amar é dividir a comida do próprio prato, sem negação, sem egoismo, é a sua comida ser também de outro alguém. Mas como é difícil dar de alimentar pra outra gente. Penso que amar é analógico, é fictício. Penso na rua, nas pessoas, nos desgostos, nas vulgaridades, no cotidiano, nas continuidades, no bar, no moço, na moça, no corpo, no copo, e não há amor em nenhuma dessas coisas. Há prerrogativas, prazeres, medos, volúpias, melodias, alcalóides. Não amor. Há amor na dedicação de um prato feito pra quem se ama, na comida que se tira da boca com carinho, pra uma boca que pede. É a vontade e a negação de si mesmo. É a constante negação de quem se é. E ama-se intuitivamente.
José amou Clara, que o amou com prazo de validade. Clara amou mais alguém e mais outro, e achou de uma bela brincadeira. José então amou Joana, mas tinha medo, fez pela metade, disse as coisas erradas, magoou a coitada. Joana ficou triste, amou e não pode mais, decidiu amar outro e não conseguir amar mais ninguém.
Amor é espólio pouco, é o pouco resto e a agradecida renúncia de seus poucos alqueires. É o alumbramento do corpo, é o alumbramento da descoberta de outro corpo, e é a capacidade e a educação sentimental, é a educação pela pedra, é a arte de amar, é o encontro de solidões, é a ditadura do afeto, e são todas as revoluções, e são todas as religiões.
É um corpo visto e a cena do vestido no chão, são as mãos e as pernas tremendo, é o soluço contido, são todas as covardias do mundo.