terça-feira, 29 de maio de 2007

Coucher

Virou-se para o marido e disse: ‘Não me tira a dentadura, não me tira a dentadura, por favor.”. Era um pudor que ainda tinha depois de duas décadas casados. “Não me tira a dentadura”. Nunca a vira sem, nunca. E achava aquele gesto a maior prova de feminilidade da sua esposa. Não a dentadura em si, não lhe importava tanto assim, não com tanta intimidade já compartilhada em tanto tempo. Era o pudor. Era o pudor que encantava. Era uma criança pedindo pra não lhe tirarem a dentadura.
Daí ela se deitou, como fizera tanto já. E se amaram em desgraçada compaixão.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Capítulo 1.

Tive que começar tudo de novo. Do zero. Essa era a única chance. Um novo começo é o pior dos começos, pois se está tentando corrigir uma tentativa frustrada de algo. Algo que talvez até achasse estar correto. Tento corrigir e começar de novo.
Começo assim portanto.
O primeiro amor é uma desmistificação. Ele serve com o propósito de ensinar o básico e enterrar sonhos infantis de Hollywood. A cultura pop, o cinema, as novelas, as músicas, é justamente o contrário que você aprende e vive. Você vive o cotidiano, o tesão esfria, vira uma doce fraternidade incestuosa, você jura amor eterno e ele não dura mais que um capricho. O segundo amor é mais maduro, porém mais desiludido, daí pra frente tudo se transforma em sexo e companhia, é um amor telúrico, e você se suja na terra que tem aos seus pés. E o décimo amor é o que? Ainda é amor ou uma convenção de sexo? É um trato de covardia?
Penso essas coisas pois penso em Tomas triste na janela...
Mentira, não vejo Tomas, nem Teresa, nem Penélope, Odisseu, nem Teseu e quem quer que fosse, deixando pra trás, pra encontrar Baco.
Mas é uma cena noturna, e é um fragmento de tudo, é um ponto qualquer. E nesse ponto ocorre assim, dois pontos:
Amaram-se vestidos, não sei se é possível amar vestido, parece uma contradição em termos, a nudez parece-me tão essencial. Mas amaram-se vestidos, conservando uma pureza que não era a ele que queria entregar. Não era para ele quem ela teria esperado tanto. Dava a língua, dava o suor, dava a unha, dava o toque, dava o ventre fechado, mas, ainda assim, algum ventre. Queria, sei que queria, mas não podia e não o fez. Tinha um rosto sereno, sereno demais, e, por isso, incompreensível. Parecia feliz, não só satisfeita, não só excitada, em seu rosto não era só a marca e o semblante puro do que só é desejo. Não, era mais, tinha um rosto de felicidade, e por isso me confunde tanto. E depois do quase-amor, feito vestidos, ela deitou-se sobre seu braço com aquele rosto de felicidade enquanto ele lhe era carinhoso. Nesse instante o rosto dela era de felicidade e sono, e ficou assim por algumas poucas horas. É-me estranho porque em todo momento o seu rosto foi de felicidade, de felicidade, e não concebo que tivesse confusão ou outros sentimentos ali. Não vi dúvida em seus olhos, não senti medo na sua postura, mesmo sendo receosa em cada passo, não vi a pura volúpia descontrolada. O seu rosto possuía uma serenidade qualquer e duvido que fosse o inocente descontrole do momento.
Até que, depois de algumas horas nos braços dele, lhe sugeriu que estava na hora de ir.
No outro dia tratou apenas diplomaticamente. Disse assuntos vagos, desimportantes, conversou com a educação dada a conhecidos semi-inoportunos. Foi sempre essa a postura que o tratou por isso a difícil maneira de lê-la.
E nesse ponto os observo, e são todos segredos. Júlia é seu nome, havia me esquecido de mencionar, talvez não fosse importante antes, mas é importante agora, e ela é quem observo agora na janela.
Acordava, era oito horas, era um dia de domingo e hoje viajaria, estava empolgada, sentia um medo terrível, medo de todas as coisas que podiam dar errado, mas esse medo só a deixava mais contente pela coragem que encontrava pra encarar tudo. Ligou o rádio, era época de carnaval e tocava uma estranha marchinha "sentimentos passam como o vento, são coisas do momento, são chuvas de verão", e encontrava conforto em tudo, a marchinha era como um conselho divino, mostrando que agia corretamente, o medo que ela sentia, junto com a excitação, fazia com que buscasse validação pra seus atos em tudo que via. Sabia a importância que esse dia tinha e como esse dia mudaria todos os outros.
E tinha velhos dezoito anos.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Sonnet

O seu sorriso é puro como uma analogia mal feita
e sempre que você se deita eu compartilho meu futuro
e com seu sussuro nosso destino se estreita
enfeita os desvarios desse nosso torto rumo.


No fundo a verdade nos espreita
as dificuldades pra descoberta desse outro mundo
e enquanto meu corpo te esquenta,
nossa realidade se alimenta e em você eu durmo.


E quando essa realidade se aproveita,
e a distância faz que acertemos nosso prumo,
como chumbo, o que é fato se ajeita.


Assim, os desejos, que antes em cima do muro,
se tornam covardes e, depois, desfeita
do sonho de antes, acorde, eu durmo.

domingo, 13 de maio de 2007

Travailleur


Drôle

Em um mundo perfeito... não sei pensar mundos perfeitos, vejo graça em tudo, até no desastre. Sei que esse mundo não é a melhor das possibilidades, mas vejo graça no asfalto e nas mulheres que se dão por pouco, homens sem dignidade e sem cabelo batendo na porta da casa da dona Maria desesperados prometendo que nunca mais vai acontecer. Vejo beleza também numa tristeza mansa em alguém quer perdeu um amor da vida inteira da semana passada. Vejo graça numa felicidade de uma pessoa velha num balanço. Vejo graça em uma conversa de bar e um gole de álcool e um carinho pequeno. Vejo graça numa lua dividida sentados com a bunda cheia de areia. Esse mundo é um mundo ideal, é só desistirmos das nossas fantasias todas, ou parte delas. O real, o possível, o tangível, é tão delicioso. A possibilidade do toque é melhor que o toque, porque o toque não é a expectativa ou a idéia.
Um amor não pode durar uma vida, porque não é, e não pode ser, todos os nossos ideais. Não pode ser todos os nossos desejos de felicidade. Mas cada pedaço de felicidade pura é o suficiente. Uma coisa como a surpresa inocente do momento. Não sei dizer mundos ideais, mas desejo um mundo ideal e próprio divido, e que animais e concreto possam existir, e que desejo e volúpia possam se dar com a inocência de uma amarelinha ou de pular cordas.
Eu me vejo inocente e longe, em meio a tintas, e um mundo ideal é feito de tintas, é a minha melhor descrição.
Banhos longos, obrigação pouca, felicidade mansa, coração alheio, paredes e chãos de tinta, e um sorriso e felicidade divididas.

Candidement

Comigo você falará sua alma toda, mesmo em silêncio. Eu falarei um dia minha alma toda, e nós não nos esgotaremos porque a alma é infinita. E além disso temos dois corpos que nos será um prazer alegre, mudo, profundo. A alma, ainda, é alguma coisa, um momento, a alma é o brevíssimo instante que se sente, a alma é o beijo enquanto tudo além do beijo, é a perda de fôlego, é o chão que some aos pés, é a Providência, tudo, menos o beijo em si. O beijo não é o contado de lábios, encontro de bocas, estrutura composta por dentes, lábios superior e inferior, palato, língua. O beijo também não é a idéia de beijo, não é a estrutura ou a lei que a rege. O beijo não é mesmo o ato ou síntese do momento apaixonado. Ele é a falta de chão, é a impossibilidade da explicação. Não é possível explicar, portanto, o momento, ou a alma que a sente. E nesses momentos se encontra a alma.
E chegará um dia, também, que iremos desistir de dizer a alma, toda ela ou alguma, por motivos vários.

Ubiquité



Ubíquo
do Lat. ubiquu
Adj.,
Que está ao mesmo tempo em toda a parte.

sábado, 12 de maio de 2007

Jupe

é um vento de erguer saias
vem, vai, passou, quem viu?

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Avis

Quando escrever é a diferença entre a distância do fim e do começo
da última e da primeira linha
e pra tudo que tinha
tem um instante que não diz nada por consenso.

por que o tropeço
é a infelicidade do pé, que caminha
e toda linha que tinha
é sempre o pé surpreso

toda poesia é isso, é a surpresa
do pé que tropeça e impede
que o verso se diga ou se perca
que é vontade e não cede.

quer dizer, é acidente
felizmente, pro pé,
é sempre o passo presente.

Souscripteur

O amava por sua companhia, e sua habilidade de lhe fazer bem com palavras, e por ser carinhoso, e por saber cozinhar, vivia dizendo essas coisas a si mesma. Mas isso não eram motivos, eram justificativas. Amamos o ser amado independente dessas coisas, independente de qualquer coisa, usamos pretensas qualidades pra legitimarmos nossos sentimentos, pra validar a nossa decisão sentimental, que não tem nada de racional ou proposital, e Júlia sabia disso, a habilidade que ele tem com as palavras, e que as faz tão bem, era também a habilidade que possuía em enganar-lhe, com as mesmas palavras a manipulava diversas vezes, não que tivesse intenção ruim, fazia por que é assim feito todos os dias por todos os casais, é uma dinâmica de poder e mais-amor, batalhas conjugais que só depois de muito tempo fazem vítimas e mostram o perdedor, acontecia, porém, que Alfredo fosse a Inglaterra nesse confronto e Júlia uma pequena tribo africana.
Não era justo e nunca fora justo.

Bon jour

Ficar acordado até tarde
tem uma grande contra-parte
se viver bem é arte,
dormir cedo é poesia.
Pois só se aproveita o dia
e só se vê a romaria
quem se levanta antes das nove.
E só se vê a dona Maria
lavando a calçada
quem conheçe o dia
e não a madrugada.
Por isso dormirei mais cedo,
pro meu olho não pesar,
e conseguir um sono perfeito,
e não as duas acordar.

Eau de vie

Amo-te enfim, com profunda adoração
Mas é por você que finalmente
Não escuto meu coração
São palavras de liberdade
Acabou-se a adoração
Mas o que não mais vejo e falta
Transformou-se em sutil decepção

Finalmente em mim
Digo assim:
Por hora não quero,
Mas juro amor eterno
Prometo que não é o fim

O que a vida reserva, não sei
Mas não minto, mais do que fiz, juro
Em todo breve instante te amei
De um coração eternamente puro

O meu desejo, amigo, seja amante
Não viva a vida mais em mim, seja errante
A sua amada é triste, ferida aberta,
Sou assim, não mereço, uma estúpida cadela

Não viva mais assim, coitado, gosta tanto
Não quero magoar-te, chamou-me tanto e tanto de bela
Que sinto na obrigação de manter-me distante.

Agora já é tarde, te digo
Mas o nosso tempo sobrou em memória
O que sempre carregarei comigo
Será o amor em toda a sua glória

No entanto, bons momentos
Aos 20 vivi com você, que vida
Morri e nasci naquele dia, tantos tormentos
Porém, em breve momento me senti tão querida

Aos 40 não quero me ver tão velha
Prefiro morrer agora, e digo
Só faço isso por você
Meu amante e meu amigo

É por isso que cometo esse ato extremo
Pra você me possuir inteira e lembrar somente
Da beleza desse momento
Do meu sorriso sempre alegre e contente
Não quero o seu sofrimento

Coeur

Emergência no P.S. São Baudelaire dos mal escritores. 00:18, horário de verão.
Entra em cena o Doutor Honóris Causa e a enfermeira Filologia, pra atender o paciente - no caso eu mesmo -.
Doutor - Enfermeira, me dê rápido um dicionário de sinônimos, temos que parar essa verborragia, que se não contida o matará.
Enfermeira - Mas doutor, sem aplicação de um sedativo Drumoniano ele pode ter sérias sequelas. Ele pode desenvolver Mal-de-Paulo-Coelho.
Doutor - Mas a situação é grave, ele já teve ataques de má-literátura crônica antes. Amputemos seu apêndice e seu intróito, deixando apenas os capítulos dois ao seis.
Enfermeira - Ok, doutor. É o melhor para o paciente.
Sobreviveu. Porém a métrica e a rima foram comprometidas. Sofrendo muito de quiasmos.
Seis meses depois, foi diágnosticado câncer de metáfora. Não quis tratamento. Preferiu morrer assim, com a alegoria intacta.

Je suis celibataire

maria, flor do dia, esposa de josé
fazia, como todo dia, já cedo o café
e dizia, com alegria, vem cá meu marido
e ele ia, com nostalgia, de quem continua dormindo

queria, com felicidade, ver o seu homem no campo
ele dizia, com rusticidade, mas quase chorando
sentia certa necessidade, de ver trabalhando
por toda a cidade, e a noite chegando

e ele voltava, e ela fazia
a janta que ele mandava, que ele queria
e ele dizia pra dona maria
no campo, você é a minha flor do dia
todo o mal em seu corpo jazia
e o cansaço que eu passo
some sempre no espaço
e de novo de novo amanhecia

Paresseux

É um dia simples de novembro e o céu é claro e só
sem qualidade alguma
As nuvens cobrem o sol e o dia se faz branco
Caminho distante até a cozinha e lavo as mãos na pia
A louça de ontem ainda espera ser lavada
mas o dia claro e branco não me permite
como uma desculpa de melâncolia

Volto a sentar-me de frente a janela e esperar coisa alguma
Abro um livro e não leio, risco no meu braço palavras de consolo
e depois levanto-me, esperando coisa alguma

Ainda é cedo e não há motivação
não há fome, não há gosto,
só uma vontade de passar o tempo
Ocupo-me das tarefas mais banais, encontrando motivação em uma música perdida

folheio páginas a esmo, leio e me surpreendo
alguns cientistas me dizem como confissão sincera
que o tempo não é nada mais que a transformação da matéria
e que antes de tudo, antes do tempo, tudo não passava de uma sopa primordial
até um grande estouro e algazarra
e dalí chamamos universo

e entendo, mesmo na minha ignorância. que dizer antes é errado,
porque se não há tempo então não há antes
ou depois
e que o tempo é mero acaso, e que o primeiro movimento da matéria, uma possibilidade infíma
sem lógica ou propósito algum
ocorreu a singularidade
e tudo partiu daí
e a partir disso existiu um antes, um depois e um agora

e evito pensar, imerso em minha vida, não entendo a importância.
e não entendo as coisas que falo e elas não sobreviveriam ao escrutínio.

e agora é um dia simples de novembro, de céu claro e só
sem qualidade alguma
e me perco em um tempo remoto, pois vivo um tempo irreconhecível
onde dinossauros habitam o planeta, e tudo é selvagem
e não passa da minha infância
e tudo e todos são de plástico.

recordo-me, quânticamente, da minha velhice
sem lógica
recordo-me do tempo vindouro, sabendo o movimento que a matéria fará
um movimento tão obviamente previsível
e de assustadora realidade
que fico apenas conformado

e nesse dia simples de novembro de céu claro e só
sem qualidade alguma
me desligo e penso em alguma outra coisa
ligo o rádio e, em algum lugar que já vivi, alguém canta

"e como uma bossa nova, hoje é triste, e quero ser feliz
enquanto não há felicidade
com tanta ansiedade
vivo por um triz"

Fatiguer

E teria os mais carinhosos e sinceros elogios a você agora. Imbecil, digo docemente. Imbecil. Escrota. Com toda a doçura existente, é um lixo e um clichê deveras triste. É só uma boçalzinha. E nada mais. Digo isso com toda ternura. Idiota. E tudo soa como gentileza. Amo a sua imbecilidade, amo a cretinice que lateja por seus poros. É uma esquisóide, sem dó de o ser. Vúlgivaga virgem. Não comida e mal sexuada. De uma doçura completa.
Não comida e ressentida. Exala o doce desprazer das que não conhecem uma rola.
E te adoro completamente pela sua ingenua boçalidade.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Platonisme

O escritor é um carente por excelência. Toda essa raça chora suas dores e coloca o singelo nome de ficção. Ficção é o nome para uma realidade que não aconteceu porque não pudemos acontecer. Homero preferia ser Ulisses, Heitor, Aquiles, a ser o próprio Homero. Ninguém mais Fausto ou Mefistófeles que Goethe. O escritor quer, em sua carência, que uma alma feminina venha e diga palavras de amor e ternura, que o tire de sua autocomiseração. Quer uma voz suave que diga “não fique assim, não há a necessidade de ficar assim, estou aqui agora, e serei só bondade e carinho, prometo, não há mais dor que te doa, não há volúpia que não te sacie, não há desejo que não te realize, sou, e sempre serei, sua ouvinte”. E assim essa Pala Atena te sacia e te mima como uma mãe Iemanjá incestuosa.

Capituler

Uma é só amor e amor todo, outra é só desejo e a desejo, aquela é um encanto de indiferença inglesa, aquela também é um encobrimento de sentimentos, num cinismo profissional, ainda outras duas, uma é paixão louca e nenhuma razão, a maior foi um amor infantil. Eu tenho que escrever sobre mulheres, é a única coisa que me ocupa e me preocupa. A observação distante, de tão próximo, da mulher, ou do que elas dizem ser. Do que elas dizem ser mulher e o que elas agem e que é animal. Todas se definem sentimentalmente, e se definem por pathos, todas se definem pela paixão, seja qual for. Todas são volúpia ardente e proteção maternal. É assim que elas se oferecem, é isso que elas acham poder oferecer. Não sei se é de natureza, mas é de propaganda, sem dúvida. Essas mulheres todas, tão pathos, tão apaixonadas, e também apaixonantes, são o contrário do que dizem, são fogo frio, medos diversos, crianças mal cuidadas, homens pela metade, sonhos de consumo, fantasias de casamento, romantismos desastrados, promiscuidades ingênuas, controle e poder sensual e choros sem razão. São desastres. Essa natureza desastrada é o sal da graça. A vista de um homem a mulher é geralmente um desespero de descontrole. Mas isso seria reduzir a mulher a uma dinâmica de borboleta. Ainda assim, são impossíveis de traduzir, não há uma linguagem feminina que eu possa entender. Uma mulher não ama como um homem ama, não ama como os homens sinceros nem como os homens cafajestes, a mulher ama com uma doçura e um cafajestismo dos piores e dos melhores homens, a mulher ama o drama e a possibilidade dramática da situação, o teatro só não foi criado pelas mulheres, pois já atuam de dentro de si para fora no mundo.

Délassement

A linguagem é falha, mas é a melhor tentativa possível pra exprimir sentimento em razão, em estímulo intelectual, e na tentativa vã de comunicar. A experiência artística é uma tentativa falha de exprimir sentimento através de uma linguagem qualquer, seja, a música, as artes plásticas, a literatura, o cinema. Seja Nelson Rodrigues e a classe média adúltera carioca, seja Manuel Bandeira e seu escapismo em novas terras. Seja Nelson Pereira dos Santos e uma cruz, seja Debussy, contratempos e movimentos suaves. Seja Leopold Bloom e seu James Joyce, seja Antoine Doinel e seu François Truffaut. Dizer um amor pungente de ficção, sendo pura abstração, ou dizer um amor pungente de uma vida inteira da semana passada.

Mécroire

Se todos fossem como você
Eu não saberia sofrer
Não teria verdades que magoam
E mentiras pra poder ver
Vem que passa o meu querer

Se todos fossem como você
E eu não mais choraria
Eu teria mil nomes
Adelaide e também Maria
Seria também ainda
Joana de Deus, Antônia da romaria,
E outras tantas, outras tantas
Cilene do Amapá, Francisca da padaria.
Seria uma mulher da rua
Seria de desgosto todo
Comeria carne crua
E viveria dentro do lodo
Porque não teria orgulho nenhum
E seria só amor e pranto
Te daria a minha felicidade e nenhum espanto.
Seria afetuosa como sua mãe
E não lhe maldiria a vida
Voltaria da rua
Trazendo sempre pão e sua pinga preferida
Te encheria a cara e lhe faria os desejos mais sinceros
Me rebaixaria e não teria dignidade
Dignidade é luxo de mulher que não ama
E eu te amo.
E não tenho dignidade alguma
Me permita fazer suas vontades e não ter vontade nenhuma.
Ser sua meretriz e fazer-lhe os gostos
Me sangro se quiser.
Me sangro agora, tiro a minha vida, se quiser
E nada te peço, e nunca te pedirei nada
Não precisa me amar
Nunca me amará como te amo.
E não peço isso
Só me permita ficar ao seu lado e ser sua
Não posso te possuir, mas você me possui
E tudo que peço é que me possua
É tudo, e não pode negar a vontade de alguém que morre de amores.
E eu morro se não me permitir.
Eu morro.
Me mato.
Me mato.

Parement

Distraído vencerei. Com Deus comigo, distraído vencerei. Não verei as mulheres bonitas andando ao meu lado, não verei o sol e a lua, não escutarei o som da chuva. Distraído vencerei, com ou sem Deus, o que me importa? Absorto em minha própria qualidade, distraído vencerei. E não haverá interrupções, grandes verdades ou objetivos grandiosos. Estarei alheio a política, ao mundo, a sociedade. Distraído estarei em meu melhor.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Suja melópeia. diz, bêbado.

Lembro dos dias de quando eu era criança e sempre no dia de ano íam todos os familiares verem os fogos enquanto eu docemente deitava na cama da minha avó hora antes do momento e sem conseguir me conter e esquecendo daquilo que todos esperavam, eu dormia. Quantas crianças dormiram nos dias de ano enquanto foram crianças, e quando despertas não eram mais crianças, e quando, finalmente, conseguiam ficar acordadas, o rito já não significava mais nada, e já eram todos velhos e o rito era visto com um cinismo de bebida.Quando eu era criança e dormia tão bem no quarto de minha avó, lembro da colcha de veludo e a vontade de permanecer acordado. Hoje sou quase adulto, sem responsabilidades, mas me sentindo pesado, cínico como a vida me quer, cínico e com interesses cínicos, dinheiro, estabilidade, um emprego, sexo de mercado, carro, essas coisas todas que nos enfiam na garganta, mas que nos locomove do ponto A para o ponto B, um carro prata sem cor.Hoje minha mãe me disse "E você, quando vai começar a ganhar dinheiro, quando vai ser responsável?". Como aquela pergunta me cansou, é a mesma pergunta que sempre escutei. Eu sou responsável, responsável pela minha existência mesquinha e restrita a esse pedaço escasso de carne. Quando daqui quinze anos no dia de ano eu for tributário e cotidiano, quando eu for o que querem que eu seja, quando eu andar no meu próprio carro prata sem cor, aí sim, poderei dizer para aqueles que estiverem ao meu lado "A vida não é tão dura assim, vejo os fogos aqui com vocês, pessoas que eu amo" daí ficarei bebâdo, dormirei no sofa ostentando minha barriga petit-borgeouis, e quando dali a mais vinte anos eu estiver aposentado e careca, distante do que era, com filhos crescidos e esposa seca, quando eu for seco e cínico, quando a vida for tão desinteressante e a única coisa que tiver me restado for o prazer dos velhos, aí poderei dizer: "Crianças idiotas, olha como a minha pele não tem mais elasticidade, olha como meu cabelo é branco e como não consigo andar mais direito, infelizmente pra vocês ainda não estou senil, e me manterei firme e forte até que a consoada das gentes chegue e me leve embora, com todo o ressentimento que sinto agora". E assim maldizerei os jovens. Menos as crianças, elas dormiram no quarto de sua avó, numa colcha de veludo como tantas colchas de veludo, assim como dormi também um dia em uma colcha de veludo, e ali, longe do cinismo e do alcool dos adultos, elas vão perder os fogos e vão dormir esperando os fogos e carinhosamente tristes por terem perdido os fogos, desesperadamente os fogos. Mas algo de desconsolávelmente belo ainda vai permanecer, com alguma alegria leal.

Monumento as bandeiras.

Querido Manuel,
quanto tempo não nos falamos. já se passam alguns anos, não? A última vez foi naquela madrigal muito engraçado, imediatamente depois daquela nota de jornal.
A questão é que hoje tenho uma câmera. Sim, uma câmera, e tiro fotos por aí. Mesmo eu tendo mais trabalho revelando o filme do que tirando as fotos. E tudo anda tão igual. Coisa ruim de dizer um fotógrafo. Claro que você me entende, sei que sim. A sua vista pro Beco é a mesma minha cotidianamente vista no ônibus. Coisa a toa.
Mas ando muito tranqueira, um nó todo, cabelo piaçava. Nem me reconheceria. Nem eu nem você.
Enfim, imagino a relevância de coisas escritas a mortos, lidos por ninguém. Muita coisa mudou, você continua o mesmo.


Saudades de ti, Manuel.



Denis.

Polichinelo

Pessoas em linha torta. Ainda inventarão um alcoól chamado samba. Pessoas em linha torta andam com o samba no corpo, dois passos pra direita, mais dois passos pra direita, e um tombo e o chão, fecha os olhos e tudo roda, e ri, e ri. E de fora é tão ridículo, mas o medo do ridículo é a maior das covardias. Uma moça loira, com nariz de papagaio, samba em linha torta, e toma decisões que não tomaria normalmente. A verdadeira posse e a maior promiscuidade é o beijo na boca. E é só um passo.
A embriaguez é um estado filosófico, em que a vodka é metafísica.
Quantas possibilidades amorosas são possíveis? Quantos corpos, que por serem só corpos, poderiam se dar a você? Quantos corpos poderiam se atrair pela sua pupila, por seu ombro, pela sua mão, e por quantos seios, e por quantos olhos pode você se encantar? Se a seleção amorosa fosse puramente sexual, teríamos tantas e tantas escolhas. No entanto, acredito que o encontro amoroso se dá por algo além corpo, e que não está na outra pessoa, se dá por um momento conjunto de carências pessoais.
O encontro amoroso é a saída do estado de angústia solitária, e, em contrapartida, a volta a solteirice é a saída do tédio acompanhado. Numa sucessão de atitudes tão óbvia que é impossível de percebê-la.
Antes, naquela noite, a linda loira com nariz de papagaio, estava triste, e encontrou por aí some charming young man.

Fiquei descalço.

tive uns amores,
vendi os chinelos.