Daí ela se deitou, como fizera tanto já. E se amaram em desgraçada compaixão.
terça-feira, 29 de maio de 2007
Coucher
Daí ela se deitou, como fizera tanto já. E se amaram em desgraçada compaixão.
quinta-feira, 17 de maio de 2007
Capítulo 1.
Até que, depois de algumas horas nos braços dele, lhe sugeriu que estava na hora de ir.
No outro dia tratou apenas diplomaticamente. Disse assuntos vagos, desimportantes, conversou com a educação dada a conhecidos semi-inoportunos. Foi sempre essa a postura que o tratou por isso a difícil maneira de lê-la.
E nesse ponto os observo, e são todos segredos. Júlia é seu nome, havia me esquecido de mencionar, talvez não fosse importante antes, mas é importante agora, e ela é quem observo agora na janela.
segunda-feira, 14 de maio de 2007
Sonnet
O seu sorriso é puro como uma analogia mal feita
e sempre que você se deita eu compartilho meu futuro
e com seu sussuro nosso destino se estreita
enfeita os desvarios desse nosso torto rumo.
No fundo a verdade nos espreita
as dificuldades pra descoberta desse outro mundo
e enquanto meu corpo te esquenta,
nossa realidade se alimenta e em você eu durmo.
E quando essa realidade se aproveita,
e a distância faz que acertemos nosso prumo,
como chumbo, o que é fato se ajeita.
Assim, os desejos, que antes em cima do muro,
se tornam covardes e, depois, desfeita
do sonho de antes, acorde, eu durmo.
domingo, 13 de maio de 2007
Drôle
Em um mundo perfeito... não sei pensar mundos perfeitos, vejo graça em tudo, até no desastre. Sei que esse mundo não é a melhor das possibilidades, mas vejo graça no asfalto e nas mulheres que se dão por pouco, homens sem dignidade e sem cabelo batendo na porta da casa da dona Maria desesperados prometendo que nunca mais vai acontecer. Vejo beleza também numa tristeza mansa em alguém quer perdeu um amor da vida inteira da semana passada. Vejo graça numa felicidade de uma pessoa velha num balanço. Vejo graça em uma conversa de bar e um gole de álcool e um carinho pequeno. Vejo graça numa lua dividida sentados com a bunda cheia de areia. Esse mundo é um mundo ideal, é só desistirmos das nossas fantasias todas, ou parte delas. O real, o possível, o tangível, é tão delicioso. A possibilidade do toque é melhor que o toque, porque o toque não é a expectativa ou a idéia.
Um amor não pode durar uma vida, porque não é, e não pode ser, todos os nossos ideais. Não pode ser todos os nossos desejos de felicidade. Mas cada pedaço de felicidade pura é o suficiente. Uma coisa como a surpresa inocente do momento. Não sei dizer mundos ideais, mas desejo um mundo ideal e próprio divido, e que animais e concreto possam existir, e que desejo e volúpia possam se dar com a inocência de uma amarelinha ou de pular cordas.
Eu me vejo inocente e longe, em meio a tintas, e um mundo ideal é feito de tintas, é a minha melhor descrição.
Banhos longos, obrigação pouca, felicidade mansa, coração alheio, paredes e chãos de tinta, e um sorriso e felicidade divididas.
Candidement
E chegará um dia, também, que iremos desistir de dizer a alma, toda ela ou alguma, por motivos vários.
sábado, 12 de maio de 2007
sexta-feira, 11 de maio de 2007
Avis
da última e da primeira linha
e pra tudo que tinha
tem um instante que não diz nada por consenso.
por que o tropeço
é a infelicidade do pé, que caminha
e toda linha que tinha
é sempre o pé surpreso
toda poesia é isso, é a surpresa
do pé que tropeça e impede
que o verso se diga ou se perca
que é vontade e não cede.
quer dizer, é acidente
felizmente, pro pé,
é sempre o passo presente.
Souscripteur
Não era justo e nunca fora justo.
Bon jour
tem uma grande contra-parte
se viver bem é arte,
dormir cedo é poesia.
Pois só se aproveita o dia
e só se vê a romaria
quem se levanta antes das nove.
E só se vê a dona Maria
lavando a calçada
quem conheçe o dia
e não a madrugada.
Por isso dormirei mais cedo,
pro meu olho não pesar,
e conseguir um sono perfeito,
e não as duas acordar.
Eau de vie
Mas é por você que finalmente
Não escuto meu coração
São palavras de liberdade
Acabou-se a adoração
Mas o que não mais vejo e falta
Transformou-se em sutil decepção
Finalmente em mim
Digo assim:
Por hora não quero,
Mas juro amor eterno
Prometo que não é o fim
O que a vida reserva, não sei
Mas não minto, mais do que fiz, juro
Em todo breve instante te amei
De um coração eternamente puro
O meu desejo, amigo, seja amante
Não viva a vida mais em mim, seja errante
A sua amada é triste, ferida aberta,
Sou assim, não mereço, uma estúpida cadela
Não viva mais assim, coitado, gosta tanto
Não quero magoar-te, chamou-me tanto e tanto de bela
Que sinto na obrigação de manter-me distante.
Agora já é tarde, te digo
Mas o nosso tempo sobrou em memória
O que sempre carregarei comigo
Será o amor em toda a sua glória
No entanto, bons momentos
Aos 20 vivi com você, que vida
Morri e nasci naquele dia, tantos tormentos
Porém, em breve momento me senti tão querida
Aos 40 não quero me ver tão velha
Prefiro morrer agora, e digo
Só faço isso por você
Meu amante e meu amigo
É por isso que cometo esse ato extremo
Pra você me possuir inteira e lembrar somente
Da beleza desse momento
Do meu sorriso sempre alegre e contente
Não quero o seu sofrimento
Coeur
Entra em cena o Doutor Honóris Causa e a enfermeira Filologia, pra atender o paciente - no caso eu mesmo -.
Doutor - Enfermeira, me dê rápido um dicionário de sinônimos, temos que parar essa verborragia, que se não contida o matará.
Enfermeira - Mas doutor, sem aplicação de um sedativo Drumoniano ele pode ter sérias sequelas. Ele pode desenvolver Mal-de-Paulo-Coelho.
Doutor - Mas a situação é grave, ele já teve ataques de má-literátura crônica antes. Amputemos seu apêndice e seu intróito, deixando apenas os capítulos dois ao seis.
Enfermeira - Ok, doutor. É o melhor para o paciente.
Sobreviveu. Porém a métrica e a rima foram comprometidas. Sofrendo muito de quiasmos.
Seis meses depois, foi diágnosticado câncer de metáfora. Não quis tratamento. Preferiu morrer assim, com a alegoria intacta.
Je suis celibataire
fazia, como todo dia, já cedo o café
e dizia, com alegria, vem cá meu marido
e ele ia, com nostalgia, de quem continua dormindo
queria, com felicidade, ver o seu homem no campo
ele dizia, com rusticidade, mas quase chorando
sentia certa necessidade, de ver trabalhando
por toda a cidade, e a noite chegando
e ele voltava, e ela fazia
a janta que ele mandava, que ele queria
e ele dizia pra dona maria
no campo, você é a minha flor do dia
todo o mal em seu corpo jazia
e o cansaço que eu passo
some sempre no espaço
e de novo de novo amanhecia
Paresseux
sem qualidade alguma
As nuvens cobrem o sol e o dia se faz branco
Caminho distante até a cozinha e lavo as mãos na pia
A louça de ontem ainda espera ser lavada
mas o dia claro e branco não me permite
como uma desculpa de melâncolia
Volto a sentar-me de frente a janela e esperar coisa alguma
Abro um livro e não leio, risco no meu braço palavras de consolo
e depois levanto-me, esperando coisa alguma
Ainda é cedo e não há motivação
não há fome, não há gosto,
só uma vontade de passar o tempo
Ocupo-me das tarefas mais banais, encontrando motivação em uma música perdida
folheio páginas a esmo, leio e me surpreendo
alguns cientistas me dizem como confissão sincera
que o tempo não é nada mais que a transformação da matéria
e que antes de tudo, antes do tempo, tudo não passava de uma sopa primordial
até um grande estouro e algazarra
e dalí chamamos universo
e entendo, mesmo na minha ignorância. que dizer antes é errado,
porque se não há tempo então não há antes
ou depois
e que o tempo é mero acaso, e que o primeiro movimento da matéria, uma possibilidade infíma
sem lógica ou propósito algum
ocorreu a singularidade
e tudo partiu daí
e a partir disso existiu um antes, um depois e um agora
e evito pensar, imerso em minha vida, não entendo a importância.
e não entendo as coisas que falo e elas não sobreviveriam ao escrutínio.
e agora é um dia simples de novembro, de céu claro e só
sem qualidade alguma
e me perco em um tempo remoto, pois vivo um tempo irreconhecível
onde dinossauros habitam o planeta, e tudo é selvagem
e não passa da minha infância
e tudo e todos são de plástico.
recordo-me, quânticamente, da minha velhice
sem lógica
recordo-me do tempo vindouro, sabendo o movimento que a matéria fará
um movimento tão obviamente previsível
e de assustadora realidade
que fico apenas conformado
e nesse dia simples de novembro de céu claro e só
sem qualidade alguma
me desligo e penso em alguma outra coisa
ligo o rádio e, em algum lugar que já vivi, alguém canta
"e como uma bossa nova, hoje é triste, e quero ser feliz
enquanto não há felicidade
com tanta ansiedade
vivo por um triz"
Fatiguer
Não comida e ressentida. Exala o doce desprazer das que não conhecem uma rola.
E te adoro completamente pela sua ingenua boçalidade.
quinta-feira, 10 de maio de 2007
Platonisme
O escritor é um carente por excelência. Toda essa raça chora suas dores e coloca o singelo nome de ficção. Ficção é o nome para uma realidade que não aconteceu porque não pudemos acontecer. Homero preferia ser Ulisses, Heitor, Aquiles, a ser o próprio Homero. Ninguém mais Fausto ou Mefistófeles que Goethe. O escritor quer, em sua carência, que uma alma feminina venha e diga palavras de amor e ternura, que o tire de sua autocomiseração. Quer uma voz suave que diga “não fique assim, não há a necessidade de ficar assim, estou aqui agora, e serei só bondade e carinho, prometo, não há mais dor que te doa, não há volúpia que não te sacie, não há desejo que não te realize, sou, e sempre serei, sua ouvinte”. E assim essa Pala Atena te sacia e te mima como uma mãe Iemanjá incestuosa.
Capituler
Uma é só amor e amor todo, outra é só desejo e a desejo, aquela é um encanto de indiferença inglesa, aquela também é um encobrimento de sentimentos, num cinismo profissional, ainda outras duas, uma é paixão louca e nenhuma razão, a maior foi um amor infantil. Eu tenho que escrever sobre mulheres, é a única coisa que me ocupa e me preocupa. A observação distante, de tão próximo, da mulher, ou do que elas dizem ser. Do que elas dizem ser mulher e o que elas agem e que é animal. Todas se definem sentimentalmente, e se definem por pathos, todas se definem pela paixão, seja qual for. Todas são volúpia ardente e proteção maternal. É assim que elas se oferecem, é isso que elas acham poder oferecer. Não sei se é de natureza, mas é de propaganda, sem dúvida. Essas mulheres todas, tão pathos, tão apaixonadas, e também apaixonantes, são o contrário do que dizem, são fogo frio, medos diversos, crianças mal cuidadas, homens pela metade, sonhos de consumo, fantasias de casamento, romantismos desastrados, promiscuidades ingênuas, controle e poder sensual e choros sem razão. São desastres. Essa natureza desastrada é o sal da graça. A vista de um homem a mulher é geralmente um desespero de descontrole. Mas isso seria reduzir a mulher a uma dinâmica de borboleta. Ainda assim, são impossíveis de traduzir, não há uma linguagem feminina que eu possa entender. Uma mulher não ama como um homem ama, não ama como os homens sinceros nem como os homens cafajestes, a mulher ama com uma doçura e um cafajestismo dos piores e dos melhores homens, a mulher ama o drama e a possibilidade dramática da situação, o teatro só não foi criado pelas mulheres, pois já atuam de dentro de si para fora no mundo.
Délassement
Mécroire
Se todos fossem como você
Eu não saberia sofrer
Não teria verdades que magoam
E mentiras pra poder ver
Vem que passa o meu querer
Se todos fossem como você
E eu não mais choraria
Eu teria mil nomes
Adelaide e também Maria
Seria também ainda
Joana de Deus, Antônia da romaria,
E outras tantas, outras tantas
Cilene do Amapá, Francisca da padaria.
Seria uma mulher da rua
Seria de desgosto todo
Comeria carne crua
E viveria dentro do lodo
Porque não teria orgulho nenhum
E seria só amor e pranto
Te daria a minha felicidade e nenhum espanto.
Seria afetuosa como sua mãe
E não lhe maldiria a vida
Voltaria da rua
Trazendo sempre pão e sua pinga preferida
Te encheria a cara e lhe faria os desejos mais sinceros
Me rebaixaria e não teria dignidade
Dignidade é luxo de mulher que não ama
E eu te amo.
E não tenho dignidade alguma
Me permita fazer suas vontades e não ter vontade nenhuma.
Ser sua meretriz e fazer-lhe os gostos
Me sangro se quiser.
Me sangro agora, tiro a minha vida, se quiser
E nada te peço, e nunca te pedirei nada
Não precisa me amar
Nunca me amará como te amo.
E não peço isso
Só me permita ficar ao seu lado e ser sua
Não posso te possuir, mas você me possui
E tudo que peço é que me possua
É tudo, e não pode negar a vontade de alguém que morre de amores.
E eu morro se não me permitir.
Eu morro.
Me mato.
Me mato.
Parement
Distraído vencerei. Com Deus comigo, distraído vencerei. Não verei as mulheres bonitas andando ao meu lado, não verei o sol e a lua, não escutarei o som da chuva. Distraído vencerei, com ou sem Deus, o que me importa? Absorto em minha própria qualidade, distraído vencerei. E não haverá interrupções, grandes verdades ou objetivos grandiosos. Estarei alheio a política, ao mundo, a sociedade. Distraído estarei em meu melhor.
terça-feira, 8 de maio de 2007
Suja melópeia. diz, bêbado.
Monumento as bandeiras.
Enfim, imagino a relevância de coisas escritas a mortos, lidos por ninguém. Muita coisa mudou, você continua o mesmo.
Saudades de ti, Manuel.
Denis.
Polichinelo
Pessoas em linha torta. Ainda inventarão um alcoól chamado samba. Pessoas em linha torta andam com o samba no corpo, dois passos pra direita, mais dois passos pra direita, e um tombo e o chão, fecha os olhos e tudo roda, e ri, e ri. E de fora é tão ridículo, mas o medo do ridículo é a maior das covardias. Uma moça loira, com nariz de papagaio, samba em linha torta, e toma decisões que não tomaria normalmente. A verdadeira posse e a maior promiscuidade é o beijo na boca. E é só um passo.
A embriaguez é um estado filosófico, em que a vodka é metafísica.
Quantas possibilidades amorosas são possíveis? Quantos corpos, que por serem só corpos, poderiam se dar a você? Quantos corpos poderiam se atrair pela sua pupila, por seu ombro, pela sua mão, e por quantos seios, e por quantos olhos pode você se encantar? Se a seleção amorosa fosse puramente sexual, teríamos tantas e tantas escolhas. No entanto, acredito que o encontro amoroso se dá por algo além corpo, e que não está na outra pessoa, se dá por um momento conjunto de carências pessoais.
O encontro amoroso é a saída do estado de angústia solitária, e, em contrapartida, a volta a solteirice é a saída do tédio acompanhado. Numa sucessão de atitudes tão óbvia que é impossível de percebê-la.
Antes, naquela noite, a linda loira com nariz de papagaio, estava triste, e encontrou por aí some charming young man.

