terça-feira, 4 de março de 2008

Não achei que poderia chegar num ponto tão profundo de cinismo. De todos os cinismos do mundo, esse me conteve. Algum momento, algum rosto estranho e uma voz estranha me contiveram. De todos os pontos finais e de todas as vozes do mundo, alguma me conteve. Por um motivo estranho, por uma voz não reconhecível, por um som ao longe, eu me mantive. Por algo distante e incerto, por uma tristeza profunda e não minha, por uma voz desdita e velada. Alguém que é sexo, que é volúpia e que são todas as covardias do mundo. Que me foi um toque, que me foi um gesto, que me foi tantos medos. E nesses medos me são tantos medos, me são tantas coisas, são tantas outras, sou tantos outros, me limito tanto, que medo tenho de mim e de você, que medo tento de tudo e quero morrer. Que medo tenho. Sei que pra você não é bom o suficiente. Sei que não é bom o suficiente e me encanta, me encanta na minha limitação e em você é expansão. Sei que devo me expandir além do meu cinismo e que devo me encontrar além do álcool. Por um toque a mais, por uma personalidade desvendada, por um acaso que não se explica, por toda matemática do mundo.
O que em você é medo e fechamento em mim é dia e alumbramento. Alumbro-me em alguém que suponho seja, em uma descrição que acha bonita, mas anti-literária. É tão gigante que é imensamente injusto nesse momento e não juro que possa durar, pois não pode jurar.
Meu pescoço dói em algo que se translada numa inocência tão verdadeira que não podia jurar. Não queria jurar. É tão óbvio e ingênuo que não pode se sustentar.
Agora penso em todas as coisas do mundo. Em todas as coisas do mundo de todas as pessoas ao meu lado que não estão ao meu lado e gostariam. E aquelas que isso não seria importante. E aquelas que isso seria um mero detalhe. Detalhe esse que não passa ao escrutínio. Que não passaria a algo que pede e exige e que não dá nada de volta.
O quanto eu tenho medo. O quanto é medo de ser medíocre. Eu sei que sou. Eu sei que sou e é inevitável.
Queria esconder isso com unhas e dentes onde eu pudesse. Onde tivesse tecido. Mas algo me impele a alguma coragem bonita e romântica. Num desfecho improvável e bobo. Sobre uma tentativa de mim.
Não deveria tentar e digo sobre todas as verdades oblíquas do mundo. E não digo de sexo, não digo de foda. Digo das minhas inocências todas. Todas. Por que é isso que posso e devo. Quero em mim as verdades mais inocentes. Quero tudo aquilo que em mim se tornou cínico.
Quero as mulheres do mundo de um homem cristalizado no tempo que exige uma mulher não limitada.
E uma mulher limitada não sei como é.
Uma mulher ampla imagino que seja ampla. Deva querer o sexo dos homens e o amor de alguém. Não imagino que queira o amor de todos, nunca ninguém quer o amor de todos. Quanto medo dá. Quanto medo eu tenho.
Sei que um amor nunca é único, nunca é único. É sempre a tentativa mercadológica das possibilidades.
Seria eu um anti-social e me esconderia em uma sequência de letras?
Não, sei que não. Sei o quanto aqueles que me acompanham querem tanto quanto eu numa sucessão de descobertas de novos lugares e numa possibilidade de alma.
Mas isso é tautologia. É tautologia e são palavras difíceis.
Não sei o que faz de literatura uma boa literatura. Não sei o quanto de alma e de gênio e de espécie e de mim seriam necessários para um pulitzer.
E não sei o quanto de mim seria necessário para te convencer.
E não sei por quanto tempo te convenceria. E não sei por quanto tempo me convenceria. E não sei em que gaiola ou que jaula me prenderia e acharia tudo tão lindo quanto uma beleza de zoológico.
Tento tanto medo. Tanto medo daquilo que se tornou gelado em mim. Aquilo que juro é raso. Raso como um pires. Aquilo que em mim é dito e que: em uma, em duas, em três, em quatro, passou... passaram.
Não sei do que é dor em você. O que foi dor em outra. Mas o que é dor em mim e tão pouco doía.
E de todas as palavras limitadas, de tudo, de todas, de quem sabe.
Ok, eu desisto.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

A realidade existente dentro da nossa própria cabeça é algo fascinante, toda a irrealidade construída por uma vida, toda a história que se passa e que é percebida de maneira particular, da vida e do mundo de plástico de quando se é criança, do medo do mundo e da ensimesmada existência adolescente, a vida prática adulta, da obra de arte, do amor, do segundo amor, do primeiro filho, do segundo casamento, dos fins de semana, do dia-a-dia, dos filmes com pipoca, dos jornais à noite, dos almoços, dos jantares, da limpeza e da sujeira, do tapete, da casa na praia, do dia no campo, na guerra do Golfo, na libertação da Índia, da fantasia doméstica, dos desejos de consumo, do ressentimento de você e da raiva de mim, da indiferença das coisas, do sono com sonho, do sono profundo e sem sonho.
Da luz da lua, do som da rua, do cheiro incômodo, da dor de barriga, da gripe cansada, da febre do corpo, da febre da alma, do gelo do inverno, do verão por verão, da primavera de Praga, da miséria no Congo, das cidades sitiadas, do latim, do grego, do inglês, do espanhol, da caçarola, do macarrão, da batata, da idade média, da revolução industrial, da revolução em mim e do piano de (em) cauda (e conserva).
Da minha mãe, do seu pai, de todos os tios e das avós que sobraram. Dos atores, das atrizes, do carpinteiro e do pai de santo. Das aranhas, das cobras, dos bichos de índole ruim, dos animais que voam sendo mais pesados que o ar e do avião. Da idade avançada com medo de quando a luz se apagar?
Da importância de dar risada de tudo isso, do cabelo branco, das guerras coloniais, das mortes por doença, das crianças com fome, do próprio infortúnio, do desapego budista e dos santos que morreram por pouco. Do cômico das saias rodadas, dos paetês, dos carnavais, da jogatina, do futebol, da alma eterna, da física quântica e da cosmologia.
Do despropósito do amor, da irrelevância do afeto, da dinastia genética, da razão darwinista, e da inutilidade da língua.
Mas da realidade da saudade se revisa a existência, no misto da coragem possível de todos os desejos do mundo com o sal da terra das coisas passadas.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Sono e morto de cansaço.
Queria ter a dimensão ridícula dos Napoleões de hospício, das histórias da carochinha, das canções de ninar, das ilustrações infantis, das generalizações bobas, dos preconceitos, do medo, das ideologias, do amor, da televisão, da limitação.
Um sono sem sonho, bom e morto, uma idéia de morte compartilhada, de descanço do corpo e de desistência da alma.
Um sono sonho bom.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

.

A barriga roncou com a fome que evitava, tinha esse costume de adiar a refeição por preguiça, mas quando leu a última frase e já pospunha por tanto a ceia, sentiu uma vontade inadiável de comer, por um simples mecanismo estomacal e por uma vontade instintiva e desimportante, mesmo sabendo que aquilo que lhe dispunha para a ceia não tinha o exotismo nem a qualidade de grandes refeições, e era, apenas, o cotidiano e mal lembrado almoço de todos os dias, e que, por isso, era preparado sem carinho e sem cuidado, apenas por costume. E assim comeu com profunda admiração de estar vivo e ser um mecanismo. Admitiu, por um instante, que comer era prova da sua natureza animalesca e mecânica, que a fome, assim como a libido, era algo que nos mostrava a natureza inevitável da pele, dos ossos e da carne, tirando a mentirosa culpa e dúvida filosófica e existencial da qualidade do ser, da ética e da moral. Comeu com fome e com pressa, com os modos convencionais, com o garfo e sem a faca, achando o prato tamanha regalia e obrigação, sem o paladar apurado, com o privilégio da barriga cheia e satisfeita.
Daí, julgou tudo tão simples e tão esparso, tão longe de tudo no tempo pelo tanto tempo que ainda virá, que, em um desapego niilista, se posicionou dali a três meses, oito meses, a alguns anos e algumas décadas, e entendeu a desimportância de tudo, que já percebera antes, mas que sempre volta a incomodar. Era uma verdade instantânea e que não duraria, pois é humano se contradizer e visitar cidades e museus que já se imaginavam visitados e vistos, por tanto, superados.
Levantou da mesa, que também julgava um exagero de convenção, e foi ao banheiro, para cumprir com todos os ritos sociais que tinha se acostumado, fez por falta de vontade da rebeldia, pegou a escova e cerimoniosamente limpou todos os dentes desapercebidamente, até que, pelo tempo passado, terminou por desistência, e pensou em outro passatempo para se ocupar.
Era um dia de chuva e leve frio, dos dias em que a iluminação natural é pouca, e toda a vida fica na sombra, dias geralmente associados à melancolia ou a tristeza, mas que na verdade são só dias de sono, daqueles que se volta a deitar por frio e se encontra a dormir por horas e horas, até quando o sol já se pôs, quando a hora é a do jantar, e que depois alguns já se dispõem a dormir de novo, num dia inútil e inválido, mas necessário para um contato com a solidão, as vezes prolífico e proveitoso, em outras oportunidades cego e redundante.

sábado, 26 de janeiro de 2008

amputação

Me encantei por um gesto de criança, por um rosto de criança, uma maça do rosto alta e ingênua, olhos de búrica, uma boca grande, vermelha e boba, dentes brancos e largos, o sorriso persistente, um cabelo de faz de conta. Ela não cresceu, permaneceu numa infância de rosto e de alma, mesmo quando o corpo já amadureceu a muito e que sabe mais da vida e do mundo do que sabe sua cabeça. O corpo tem um domínio de si que a cabeça não tem e não se permite, o corpo insiste numa independência indiferente, auto-imposta e auto-imune, com gestos largos e definidos, com passos firmes e a decisão de um chefe de Estado, mas a cabeça não, a cabeça se impõe uma distância e uma estiagem que não são necessárias, a cabeça, assim como o rosto, não envelheceu, continua de criança, com seus medos e a vontade de brincar, com o choro e o medo de dormir sozinha. Quem vê o corpo imagina pouco a alma, porque não se parecem, as pistas que o corpo dá levam pra caminhos falsos, mas o que os olhos grandes e verdes mostram é nítido e bonito, algo bom e desejoso de mimar, num desenfreio carinhoso, com alguma angústia sem nome.
O seu corpo diz mentiras de uma história que a cabeça não sabe para onde quer levar. Não se entende o porquê antes e por tão pouco tempo sentiu tanto, em algo que achava que era só vício e vontade de amar. Quando aquele que desejou por um tempo não se mostrou generoso como achava que era, e quando agiu com a cabeça de criança mentindo com o corpo de adulto, não soube mais como levar essa história e preferiu uma amputação de um membro que nunca esteve antes em seu corpo, mas que quando se fez parte, achou que não poderia viver sem. No entanto, podia viver sem aquela presença cotidiana, já vivera tanto tempo sem e não fazia falta nem tinha necessidade, e fora assim outras vezes com outras presenças que, imaginava por um tempo, não saberia se desvencilhar. Porém, assim como outros, esse fora dono temporário de seu corpo que por talvez essa razão de sabedoria prévia, amadurecia e se transformava, sabendo a transitoriedade da situação e a banalidade do fato.
Então a cabeça escutou o corpo numa decisão precipitada, mas irredutível, com uma força de vontade que um corpo nunca suporta, mas que onera a alma, mostrando a quem for presente que tipo de espírito se tem e com que garra se decide a vida quando se julga uma situação mal julgada. Infelizmente a alma não tem culpa dos cinismos do corpo ou dos medos do coração e se tira assim a possibilidade de algo bom de alguém amputado.

domingo, 13 de janeiro de 2008

do ofício

Para escrever uma poesia imagino que primeiro se precise de um assunto, um tema, um mote. Através disso se tem motivo, uma razão, pra escrever, algo que te impele ao ofício, a labuta. Depois se deve ter algum tipo de método, de técnica, de jeito, de modo, senão lá se vai pelo caminho o esforço recém começado. Deve, imagino, o poeta entender de rima, de versificação, de métrica, da estrutura toda. Imagino que escrever qualquer poesia é ter que conhecer toda poesia da história, da poesia épica a amorosa, da laudatória a de escárnio, de Homero a Ovídio, de Bocage a Walt Witman, de Quintana, Baudelaire e Ezra Pound a qualquer senhor que canta num bar as dores de corno e de amar.
Depois da lição e do aprendizado da poesia, se vai o esforço hercúleo, aditivante e adverbial da construção frasal. Todo o amor do mundo, toda a tristeza da história, a delícia da noite, o desencanto da perda, as maravilhas da aventura e as graças da conquista, tudo tão necessário para a construção de uma boa poesia.
Isso faz com que esse não seja ofício de desavisados, não faz com que o despreparado aedo modesto, de um canto qualquer em um lugar qualquer, triste ou feliz por qualquer motivo, possa ou deva se aventurar na divina criação poética.
Mas um desavisado rapsodo se aventura, e, mesmo com anacronismos e arcaísmos de mini-enciclopédias e manuais de banca, tenta dizer vontades, e amores, e, às vezes, felicidades impossíveis de se conter. Daí do peito a forma são ditos e rimados amores com temores, desejos com ensejos, abacate com tomate, e com vontade de tudo.
E toda a pobreza sincera é transmitida, e um amor é eternizado num versinho bobo, numa idéia de senhora que dura até um dia de Reis distante. E assim o verso dura mais que um amor, que uma vida, que um Império, até o limite do idioma e da vontade que o concebeu.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

adieu mon concubin

Quando do seu dia de mudança, ..., pensou ali as coisas que tinha vivido. Era uma maneira justa e única de encerrar uma etapa, era a única maneira que poderia se sentir - e imaginou que é assim que todas as pessoas se sentem e que esse seria o mesmo tipo de revisionismo que as pessoas todas fariam, fazem e farão. Então ela observou bem entre janela e armário, entre cama e teto e chão a vida que a passou por ali e que em um momento achou muita e tão logo achou tão pouca. Escondeu-se em significados, em metáforas para aqueles objetos todos, que sem ela não teriam vida, mesmo, em fato, não as tendo vida nenhuma.
O armário ia do teto ao chão, e não sobravam espaços. Era alto e espaçoso o armário, um baú com sua história e maquiagem e roupas e cartas, e que, quando abria, era irremediavelmente para bagunçá-lo. A cama, como geralmente acontece nos quartos, ficava do lado da janela e em frente a um espelho. Era um quarto naturalmente iluminado, mas que via pouco a luz do sol. Era, no dia a dia, banhado sempre pela luz elétrica, mantendo a janela fechada para evitar o muito calor que fazia ali.
Ela via o espelho, a escrivaninha, a TV colocada ao alto, perto do teto, pensava em si, e pensava no mundo. Ela não podia evitar pensar na sua cama de solteiro, com um colchão largo e estrado grosso, com duas grandes gavetas em baixo. Pensou na metafísica da cama, pensou nos vilões que ali se deitaram, e pensou que só poderiam ser vilões, nunca bons moços. Pensou na felicidade que se passou ali, mas que não podia pensar como felicidade, essa nostalgia só a faria se sentir mal. E depois, deixou de pensar um pouco.
Teria que se despedir daquele espaço muito em breve, e sentia que já era tempo. Teve a noção exata e premonitória de que não seria mais feliz naquele lugar, e que só poderia almejar uma vida nova e um novo gosto de tudo.
Não era uma pessoa triste, justamente o contrário, irradiava de si aos outros aquele tipo de benesse inominável que transmitia alegria para quem quer que fosse. E, por isso, não entendia bem o porquê daquela dinâmica que se instaurara em sua vida. Era feliz, tão feliz, mas tão triste, só assim eu conseguia defini-la.
E quando a distância entre a escrivaninha e a porta, entre o teto e o chão, se tornaram pequenas, e quando passou a se sentir sufocada, e que decidiu que aquele espaço era pequeno para si, decidiu fechar a porta de súbito, se imaginar em lugares maiores e mais justos, bons lugares em que a sua vida seria uma boa vida, com trabalho, com música, com luz natural, com amigos, com bons dias e, finalmente, com boas noites.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

.

É uma inteligência de corpo, é uma inteligência do corpo.
É a inteligência dos olhos verdes, do cabelo amarelo e do rosto vermelho. É a inteligência que me confunde.
Mexe-se como quem sempre se mexeu e o que diz se traduz naquilo que o corpo dela diz, não como a voz soa, na maneira como diz coisas feias mas senta no meu corpo, como diz que quer distância e se traduz tão próxima de mim, que é quente, que tem o ventre quente.
Me diz coisas tão bonitas e tão horríveis que eu não tenho idéia de que pessoa eu estou lidando, de quem está na minha frente, me deixando descalço por mais que eu tente.
É um rosto e um olho tão grandes numa atriz tão grande que eu às vezes acho que sabe exatamente como eu vou reagir e que gosta da minha previsibilidade. E não passo de previsível.
É uma inteligência do corpo, inteligência essa que não sei enfrentar. Todas as palavras que digo tem algo de inútil e leviano, algum comprometimento que se torna desimportante pra essa inteligência universal, todas as respostas do mundo são dadas e eu não consigo ficar calado.
Enquanto isso eu tento traduzir o quadril e o rosto e o gesto e o abraço que me dão alguma coisa como resposta e que eu insisto em perguntar.

domingo, 25 de novembro de 2007

.

Li uma teoria sobre o sexo que me foi espantosa e interessante. A teoria, cujo caráter era da interpretação filosófica ou metafísica, longe da metodologia científica, dizia, trocando em miúdos – e eu sempre imaginei o porquê de trocar em miúdos quereria dizer sobre algo de maneira rápida ou resumida, enfim – a teoria dizia que os homens brancos – aposto que os homens brancos ocidentais, caucasianos de origem judaico-cristã, aureolados pelo ótica burguesa do capitalismo, essas coisas das críticas institucionalizadas, e não o caucasiano dos Bálcãs, por exemplo, enfim, divago de novo – dizia que os homens brancos não sabiam amar, pois nunca se entregavam a cópula de maneira total, animal, estando, portanto, nunca inteiramente nus. E que isso, obviamente, era ruim. E que só os negros sabiam entregar-se completamente – o que, na minha cabeça, pressupunha certa culpa atávica do autor perante a nossa história, um tipo de complacência e condescendência literária. Vai saber.
Mas não posso concordar com a personagem, que talvez explicite alguma opinião do autor. Todo sexo é feito com roupa, com alguma roupa, com alguma personalidade. O sexo não é o encontro e a entrega animal. A volúpia tem de outras nuances além do óbvio e taxativo encontro entre dois animais.
Se fosse assim seriamos como outros mamíferos, reproduzindo em algumas épocas específicas do ano, quando estivéssemos todos no cio, trepando pelas árvores, geralmente entre maio e junho, pros do hemisfério norte, e algum outro mês pros do sul.
O sexo tem muito de mística, e não é o encontro fortuito e darwiniano de corpos apenas. E a gente nunca fica completamente nu. O sexo carrega em si todas as elucubrações que uma pessoa pode ter durante sua vida, desde a noção de amor, a idéia de liberdade, o mote da libertinagem, a desculpa literária, o refreio psicanalítico, Adão e Eva, e todos os arquétipos.
Os medos, a personalidade, o jogo, a fuga. Não posso achar que estamos nus.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

La Dolce Vita

E tentamos buscar símbolos, significados, em tudo. O cinema é expressão máxima, talvez, da construção simbólica ou metafórica através da imagem. É nossa necessidade.
A primeira cena de La dolce vita, de Fellini é um bom exemplo. Quando o helicóptero sobrevoa o prédio onde estão algumas mulheres acenando, o helicóptero plana e Marcello Mastroianni, um dos maiores símbolos masculinos da história do cinema, abafado pelo som das hélices, pede o telefone das mulheres. É uma cena famosa, explicada geralmente como metáfora para a incomunicabilidade entre os sexos.
Algo óbvio e aparentemente desejado por ambos, como o encontro sexual, visto o aceno das mulheres e o interesse dos homens, não é concretizado por algo que os impede de se entenderem. Claro que essa cena evidencia isso, a tal incomunicabilidade que nutrimos, seja por quais motivos. Mas a cena pode ser percebida também de outras maneiras, contendo outras metáforas.
É possível perceber o helicóptero como um beija-flor, ou como um inseto que voa, que carrega o pólem de um lado a outro, fecundando as flores, o que é delegado a um papel masculino. Isso pode ser suposto pelas características de um helicóptero, como voar, conseguir se manter estável em vôo, como o beija-flor, quanto pelo seu desenho, quase como uma libélula. Por outro lado, o prédio é estático, não pode se mover, fica a mercê daquele que a poliniza. As mulheres, na cena, esperam a aproximação masculina. Se mostram atraentes, assim como uma flor se mostra através de cores ou formas, flertam, tentam a aproximação com aqueles que aparecem. Daí acontece o sabido, a incomunicabilidade se instaura, um diálogo simples não é efetuado e o helicóptero-macho vai embora.
Para completar a alegoria, a cena pode nos propor, através dessas metáforas todas antes ditas, que a natureza e a função masculina e feminina são diferentes. Que nossos anseios e desejos não são congruentes, quase como se fossemos espécies distintas.
Claro que a cena, como todas as cenas do mundo, pode ser interpretada de maneira diferente, e essa é só um ponto de vista.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

.


Então pensei que eu não era apto a viver. Pensei isso por uma lógica simples, talvez por isso, quase verdadeira, universal. Pensei o seguinte, eu não sou ou estou apto a viver. Pensei que assim como algumas pessoas não nasceram para ser matemáticos ou engenheiros, ou como alguns não eram nascidos para a beleza ou para a boa forma física, assim como alguns não tem a disposição para serem atletlas ou pensadores. Pensei então que alguns não tem a aptidão para viver, para enfrentar as mazelas de tudo, da sua própria cabeça, do convívio social, dos conceitos de tudo, da moral, da ética, do corpo, da libído, da preguiça, do sono, do medo, seja do que for. Algumas pessoas tem a inabilidade natural e não sabem se sustentar com o peso do dia. Assim como só é possível aguentar o desagradável por pouco tempo, assim a vida se pesava sobre mim, como responsabilidade que afoitamente queremos nos livrar. Entendi, então, que não estou apto a viver e, portanto, sei que meu tempo não é muito e que em algum momento desistirei.
E isso, essa epifânia pobre, aconteceu as seis e meia da manhã, dentro de um ônibus, voltando pra casa por um motivo qualquer. Percebi que, mesmo não tendo nada para se sentir satisfeito, não tinha nada para reclamar, mas ainda assim, percebi o quanto era desagradável toda existência possível. Da minha realidade imediata em uma cidade pequena até um pretenso futuro promissor em qual lugar seja. Mais do que sentido não visto em tudo isso, não tive vontade. Não foi a falta de explicação ou razão para um esforço, não foi a consciência da desimportância de tudo e todos, e da inevitabilidade da morte, e da fugacidade do tempo, ou qualquer iluminação sobre os propósitos da vida. Foi só cansaço. E também não era aquele tipo de cansaço que se passa com banho, férias ou uma boa noite de sono. Era a falta de vontade para as descobertas vindouras, por um tédio da alegria, do bom, do gostoso, do proveitoso, e uma desistência atencipada do ruim, do triste, do medo, da raiva.

sábado, 21 de julho de 2007


Hoje meu avô está na UTI da Beneficiência Portuguesa. Sua condição? Foi desenganado pelos médicos. Porém, não é uma história trágica, é uma história comum. Hoje ele tem noventa anos completos em março último. Minha avó, Joana Thenório, dona de um nome que corresponde ao seu caráter, está desolada. Mesmo sendo compreensivel e anunciada sua morte, dadas a idade avançada e as condições de saúde do meu avô, ela, minha vó, continua apegada e em negação, não aceitando os fatos que se dão, mesmo sendo outro corpo que ela terá que enterrar, depois de tantos outros.
Foram cinquenta anos de casamento, o primeiro dela, o segundo dele.
Em 1984, ano do meu nascimento, minha vó foi diagnosticada com cancêr de mama. Ela passou por essa dura época sozinha longe de casa, teve que fazer a cirurgia e o tratamento radio e quimio-terápico sem a presença de parentes. As filhas eram muito novas, o marido, meu avô, tinha que trabalhar e cuidar dos filhos.
Enquanto ela sofria os traumas severos do tratamento, ele arrumou uma amante. Sabe lá quantas outras foram, essa era alguma. Era uma vizinha. Não sei mais detalhes disso. Todas as filhas sabem dessa história - e de outras - e ressentem o pai por isso. Desconfio também que a minha avó saiba, mesmo permanecendo não dito pela família.
Penso que esse texto seja sobre ressentimento, mágoa, coisas assim. Por muitas vezes vi nos olhos dela o desamor e o desafeto de alguém que consumiu tanto a sua vida, contudo tudo isso importa tão pouco hoje. Ela vai, misericordiosamente, todo santo dia visitá-lo, mesmo, talvez, ele não entendendo mais o que se passa.
Depois de noventa anos vividos, todas as guerras do séc. XX vistas, todas as mudanças cotidianas, da privada ao celular, tudo, quase todos os presidentes, duas capitais, tantos nomes, tantas mulheres, tantas saias, tanto desgosto, tantos enterros, e depois de tudo, penso o quão desnecessário seja ressentir.
O luto desculpa tudo, todos os erros.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Os alumbramentos do corpo e a arte de amar



O que é o amor? Será que eu sei? Amar é dividir a comida do próprio prato, sem negação, sem egoismo, é a sua comida ser também de outro alguém. Mas como é difícil dar de alimentar pra outra gente. Penso que amar é analógico, é fictício. Penso na rua, nas pessoas, nos desgostos, nas vulgaridades, no cotidiano, nas continuidades, no bar, no moço, na moça, no corpo, no copo, e não há amor em nenhuma dessas coisas. Há prerrogativas, prazeres, medos, volúpias, melodias, alcalóides. Não amor. Há amor na dedicação de um prato feito pra quem se ama, na comida que se tira da boca com carinho, pra uma boca que pede. É a vontade e a negação de si mesmo. É a constante negação de quem se é. E ama-se intuitivamente.
José amou Clara, que o amou com prazo de validade. Clara amou mais alguém e mais outro, e achou de uma bela brincadeira. José então amou Joana, mas tinha medo, fez pela metade, disse as coisas erradas, magoou a coitada. Joana ficou triste, amou e não pode mais, decidiu amar outro e não conseguir amar mais ninguém.
Amor é espólio pouco, é o pouco resto e a agradecida renúncia de seus poucos alqueires. É o alumbramento do corpo, é o alumbramento da descoberta de outro corpo, e é a capacidade e a educação sentimental, é a educação pela pedra, é a arte de amar, é o encontro de solidões, é a ditadura do afeto, e são todas as revoluções, e são todas as religiões.
É um corpo visto e a cena do vestido no chão, são as mãos e as pernas tremendo, é o soluço contido, são todas as covardias do mundo.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

.


Quanto mais eu penso em mulheres, em escrever sobre elas, mais algo atávico em mim surge, emerge, com extrema arrogância. Emerge a volúpia, o desenfreio do desejo, penso em seios, quero meter a cara entre pernas sem pudor, abertas a mim sem remorso, quero seios que me alimentem de algo que não é leite, e que não é alimento, mas que me faz viver, pelo menos por hora, pelo menos como motivo de curta duração. Depois terei raiva, de todas elas, maldirei por desinteresse, maldirei por falta de ternura e incompreensão, maldirei pelo muro que separa o que é exclusividade feminina e o que é limitação masculina. Depois não terei mais raiva, e será só uma indiferença cínica e britânica, com uma educação e falsidade européias. E depois de tantos estágios de atuação, depois do primeiro, segundo e terceiro atos, tudo se repetirá, voltarei ao desejo da mulher que se curva a mim em gesto de arco, reclinando-se nua a mim numa reverência invertida, dando-me as costas e o quadril exposto.
Foi assim com Catarina, e Catarina é só um nome mentiroso, coloque aqui dezenas de outros nomes, foram tantas que algum desses nomes provavelmente acertará. Catarina não foi a primeira, nem a última, nem a mais importante, não há nada que a faça verdadeiramente marcante, nem digna de ser narrada, mas é essa desimportância que me faz querer dizer como são as experiências de um homem pouco decente, pouco sensível, cristalizado nos gestos, nos gostos e na ternura. Por que me tornei assim? Não sei. Não me preocupo na improdutiva labuta do escrutínio das neuroses. Não fui acostumado a psicanálise.
Mas digo de Catarina, possuí, como possuí todas, em camas alheias, nunca na minha cama, por uma razão simples, meu quarto sempre está muito empoeirado, e isso não é uma alcova atraente. Apesar que, analisando melhor - e com medo de cair nas análises psicanalíticas - acho que não era só isso. Penso que não podia deixar-lhes tomar pose da minha cama, possuir esse móvel tão simbólico, tomarem a minha cama de assalto, com a vólupia que me tomaram tantas vezes o corpo, seria um atestado de possessão que não permitiria que tivessem. Dou o corpo, pois é inevitável dá-lo, mas a cama, símbolo tanto da minha libído quanto do meu sossego, essa não poderia dar jamais.
E por isso só amei Catarina no mato, em sessões matutinas, as terças e quartas, e as vezes no cinema, nas matinês de sábado.
No cinema sempre se mostrou mais divertido, leve, as matinês sempre tinham poucas pessoas, era um cinema de bairro, cinema esse que as estréias sempre vinham com atraso, as estréias eram velhas de véspera.
Os filmes eram pouco importantes, nunca liguei para as imagens que se passavam na tela, por mais atraentes que fossem, sempre fui com o objetivo da posse voluptuosa, e que, quando tomado pelo desejo da carne, pouca coisa pode desviar nossa atenção. Talvez, só um acidente qualquer ou alguma morte na família desviaria do objetivo incial, algum motivo raro e caro, que, ainda assim, nos faz maldizer o momento inapropriado pra tal fato ter ocorrido, e se, a mãe, a vó, o tio ou o cachorro, não poderiam ter falecido duas horas depois. Pois assim se dá o tesão, sem nem mesmo respeitar o luto. Felizmente no meu tempo com Catarina, ninguém morreu, portanto nunca fui impedido de possuí-la.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Journal

Elenildo João de Souza, 47 anos
vivia em um albergue qualquer
com Elineide Almeida, sua mulher

Era uma terça feira igual
e, para morrer, saltou desesperado
do terceiro andar do Shopping Eldorado

A Polícia não sabe o motivo
para seu suicídio, mas
é só pensar em meses atrás

Estava desempregado mas não justifica
e agora se tornou alguma notícia
uma nota no Jornal do Brasil

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Apocalipse 1:9–11


Eu, João, irmão vosso
e tanto companheiro na aflição
no reino, no Senhor nosso
e de Jesus o Coração


Estava em Patmos, na ilha
pela palavra de Deus
e testemunho de Jesus
uma voz ditou o caminho dos meus
pelo homem da cruz.


Um voz de trombeta insistia a dizer:
"O que vês, escreve-o num livro
e envia a sete igrejas
para o Senhor bel-prazer


e para essa missão te peço
mande primeiro para Éfeso.
A Voz do diretor diz e ardes.
leve a mensagem também a Sardes
A Esmirna mande e tão completo
A Filadélfia e Laodicéia
tenham um rumo certo
por uma grande odisséia.
e Pérgamo, a última
percorrer todo o deserto.".

sábado, 16 de junho de 2007

Rois et Reine

Vamos virar rainha e rei
com a coroa que eu te dei
a gente monta o castelo aqui
no fundo do meu quintal
a gente usa sobra das coisas e enfrenta o mal

uma cadeira vira torre, uma mesa
vira ponte, a toalha um belo vestido
monto um castelo colorido
e um grande arsenal

e o gato vira bruxa, o cão vira dragão
por ti enfrento todos e por dom sebastião

Vem, vou ser Dom Diniz
te mostro a cicatriz
daquela outra menina
ai cretina, que fui infeliz

e de dia
vou com a cristandade enfrentar os mouros
a noite
o teu corpo arde e em você eu morro
e tudo assim
e não saio do meu jardim

com o nosso sangue uma grande dinastia
eu, Dom João, você Dona Maria

e de plástico o meu exército, só pra me exibir
você diz que é brincadeira de mal gosto
eu espero até agosto
pra poder partir.

e enfrento a morte
com Deus e a sorte
até o portão, a contra-gosto
pra me despedir.

sábado, 9 de junho de 2007

As aventuras do detetive Bob Dylan e seu cão Rufus Wainwright.

Era uma noite de 62, o detive Dylan, Bob Dylan, está mais uma noite em seu escritório a ler Rubem Braga e escutar o bom e velho som de Nina Simone. Vivia entediado. O último caso que lhe aparecera havia resolvido em tempo recorde, com muita astúcia. Isso devia fazer com que ganhasse algum prestígio, deveria fazer com que melhorasse a sua reputação. Mas talvez as pessoas não tivessem mais problemas ou desconfianças. Então Bob só espera quando ou aquela loira deslumbrante adentre a porta chorando esperando salvação, ou o Chefe de Polícia solicite a sua esperteza em algum assassinato. Mas não acontecia. Bob só esperava. Imaginava cenas e situações, ansiava colocar seu gênio em prática.
Imagina situações. Era tudo branco, claro, alvo, como a pele de uma adolescente albina.
Uma mulher adentra a porta, ela é loira, morena, as duas coisas juntas, nenhuma dessas coisas. Cabelo curto, longo. O marido desapareceu, o amante morreu, a irmã gêmea se suicidou. Era Jean Harlow, era Diane Keaton, era Penélope Cruz.
Pobre Bob. É sábado a noite. Pospunha indefinidamente a volta pro seu apartamento no East Village. Encontraria Rufus, seu cão da raça Wainwright.
Pobre Bob, alguém devia dizer-lhe pra ser mais pró-ativo. Procurar os crimes na rua, diretamente onde acontecem. Não adianta em nada esperar em seu escritório.
Dez para as três da manhã. Decide ir para o seu apartamento. O disco High Priestess of Soul tinha tanto tocado em loop que não sabia mais qual era a faixa um.
Levantou-se, dirigiu-se a porta, foi então quando...
Foi quando saiu e fechou a porta, sem metáfisica envolvida.
Chegou a frente de seu prédio, era um apartamento bom, tendo em vista seus rendimentos e sua condição de vida. Fora pressente de um empresário, Clovis Bornay, rico atuante da área da moda.
Em frente a seu prédio foi abordado por seu amigo e também porteiro, J. Nicholson.
-Bob, Bob, wait.
-Hi, Jack, what´s up?
-Did you know what just happened with the daughter of Madame Bovary?
-No, I just came now, in this second.
-She was found lay down on her back, dead, with a note, "Ceci n´est pas une decedée"
Bob tinha algum conhecimento em frânces, conhecia uma jovem chamada Edith.
Procuraria Edith pela manhã.


Fim do capítulo 1.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Film

Análise sobre o filme O enigma de Kaspar Hauser, do alemão Werner Herzog, para uma aula qualquer de sociologia.




Cada um por si e Deus contra todos.
ou
Emílio
ou
tentativa
ou
reticências

A sociologia tem um aspecto definidor, ela é um ramo do conhecimento que percebe, ou tenta perceber, semelhanças entre os homens, entre os grupos sociais, semelhanças essas que nos categorizem. Claro, essa é uma definição bastante leviana, imprecisa, generalizante e injusta, mas por enquanto fiquemos com essa definição.
Sempre me pensei como um indivíduo único. Sim, com pleonasmo e tudo. Sempre me vi tomando decisões diferentes daquelas dos meus pares, sempre me achei agir diferente daqueles ao meu redor, tivessem ou não as mesmas condições, não importava, era o diferente. Achava-me mais maduro, possuidor de qualidades que outras pessoas não possuíam. Enfim, mesmo esse parágrafo é como outros tantos parágrafos, dizendo e refletindo desejos e aspirações como tantos fazem e fizeram.
Mesmo a minha história pessoal, única e instranferível, vejo-a como acontece semelhantemente tantas e tantas vezes, todos e todos os dias. Mesmo a minha situação não me singulariza.
Pois bem, o tempo passa e essas impressões de singularidade vagueiam, diminuem. É criada uma consciência de que os tipos se repetem, você passa a classificá-los, de maneira apurada ou não, de maneira justa ou não. Você percebe que mesmo você, em toda sua singularidade, se classifica em um tipo, seja qual ele for. Você possui seu grupo e pouco transita para outros grupos. Julga esses outros grupos, acha-os ruim, julga os seus gostos, suas roupas, enfim, esses definidores de similaridades. Uma similaridade, uma identificação, comprada, mas ainda assim uma identificação.
O enigma de Kaspar Hauser (Jeder fur sich und Gott gegen alle), do alemão Werner Herzog, é sobre Kaspar Hauser, cuja vida é envolta em mistérios. Ele, Kaspar, viveu aproximadamente as duas primeiras décadas de sua vida em uma gruta, sem contato social, não tendo contato verbal com outras pessoas, fato esse que, obviamente, o impede de aprender uma língua, a não ser algumas poucas palavras, como "cavalo", que lhe é ensinada no começo do filme por um anônimo "tratador", na falta de um termo melhor, já que não é educação, no aspecto comumente associado a palavra, aquilo que lhe é dado. Depois de um tempo Kaspar é levado para uma cidade, Nuremberg, e é deixado na praça com uma carta endereçada a um capitão da cidade, explicando parte de sua história. Com ele é achado alguns outros poucos objetos, entre esses objetos alguns que indicavam que pudesse pertencer a uma família nobre.
Kaspar é, então, educado. É ensinado a ele falar e escrever, aprendendo, portanto, uma língua. Aprende ainda uma outra linguagem, a da música. Passa, também, por um processo de socialização, aprende costumes e etiquetas, aprende a portar-se a mesa, veste-se como todos os outros, quando antes mal vestia-se.
Contudo, Kaspar ainda mantém certos traços de sua vida anterior, apresenta dificuldade de comunicação, muitas vezes não conseguindo expressar certas emoções que sente. Não consegue, ainda, definir, por um tempo, com precisão o que é real daquilo que é sonho. Tem uma lógica infantil, lúdica.
Kaspar é a quintessência do bom selvagem, é sempre a alma boa e gentil em contato com o social, cuja influência o corrompe. É sempre tratado como o ser naturalmente bom, cuja lógica infantil tenta entender o mundo em contraposição ao cinismo das pessoas cuja classe social é mais elevada. É o caso de certos personagens, como o nobre que o apresenta na festa como uma curiosidade, fazendo com que sua condição seja apenas um passatempo para "civilizados", ou o padre, se me recordo bem, que tenta ensinar lógica a ele, sempre desrespeitando suas dúvidas sinceras. Sempre os personagens mais pobres ou simples são retratados como bons. É o exemplo da família que o acolhe e o socializa.
É um discurso ainda com esses resquícios, que contrapõem de maneira maniqueísta o ser natural e o ser social, quando somos claramente, e, indubitavelmente, seres naturais e seres sociais, mesmo em uma sociedade primitiva, somos sempre seres relacionais, seja com o que ou quem essas relações. Essa relação dialética entre o ser natural e social é o que nos molda. Somos, ainda, criadores de símbolos, de signos, de significados, justamente para que essa relação se torne mais produtiva, mais próxima, agregadora.
Esses aspectos de nossa convivência, essas singularidades e especialidades de nossa espécie, nos tornam únicos, capazes de registrar a nossa própria história.
Porém, mesmo sendo únicos como espécie, em que medida somos únicos como indivíduos? Como poderíamos perceber isso nos dias de hoje, quando nos definimos por nossas profissões. Quando alguém pergunta "O que você é?" a resposta sempre vem como uma profissão, "sou economista", "sou bibliotecário". Se essa é a maneira como nos definimos, nos inserindo em um grupo, em uma função, como poderíamos, ou poderemos, nos perceber como um ser completo?
Essa talvez seja a grande confusão e incoerência do meu texto. Definimos, ou tentamos definir, ou perceber, a sociedade inteira, ou os processos sociais, tomando por base uma única vida, uma experiência única, individual, sem conseguir trazer a luz do esclarecimento outras tantas situações, justamente por não saber o quão válidas são.
Kaspar Hauser existiu, sua história é exemplar pra entendermos os processos de socialização. A maneira como o contato com o outro nos molda. A maneira como os signos e os símbolos são aprendidos, subjetivados, internalizados.
E a minha singularidade conseguiu criar, com todos esses símbolos que nos é convencionado, esse texto mal ajambrado, mal construído, porém cheio de dúvidas sinceras. Essa, talvez, sendo a maior marca tanto da singularidade, quanto da espécie, a capacidade de questionamento.

domingo, 3 de junho de 2007

Bonheur


A felicidade tem uma característica espantosa. Ela consegue nos fazer sentir desprotegidos. É como se fossemos novamente crianças e, a medida que a felicidade nos alcança, a sensação de vulnerabilidade se instala. A sensação é a de sermos crianças, com um brinquedo novo em mãos, em que a qualquer momento alguém possa vir e roubar-nos o brinquedo, ou a felicidade, sem que nada possamos fazer. Sem as explicações ou racionalizações dos adultos. Sem leis que controlem isso e que punam os culpados. Sem uma ética que dite comportamento. E sem uma moral que condene a perda do sentimento.
Como crianças, voltamos a um estado choroso e desiludido, esperando que os pais nos conforte, mesmo sendo, mesmo alí, inútil. E nos contorcemos em birras.
A felicidade tem esse caratér fugídio. E as vezes o medo de perdê-la é maior que o tanto que a aproveitamos. Somos todos bastante covardes, vendo por esse prisma.

sábado, 2 de junho de 2007

Écrivain


Comecei a ler por um motivo simples. Por esnobismo. Sempre me pareceu coisa de gente de classe o hábito da leitura. Todos aqueles nomes difíceis, todo aquele conhecimento acumulado que mais parecia ferramenta de superioridade ecônomica ou de classe do que algo que seja inteligência ou sabedoria, no sentido de algo que seja realmente útil pra uma existência, sei lá, melhor. Ainda assim, os livros exercem um fascínio estético espantoso, o formato retangular, as folhas sendo uma a uma, ou muitas a muitas, viradas, a idéia de alguém te observando e te admirando de longe, a possibilidade de se esconder atrás de uma capa qualquer e poder observar o ambiente. Quantas vezes aconteceu de o que eu lia ser desimportante, o pé na mesa ou a mão no queixo, a perna cruzada serem mais importantes. A mística que se constrói na sua personalidade quando alguém te associa aos livros que você lê.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Rien

Eu não tenho nada a dizer. Isso é tão nítido, alvo, claro, raro, como a pele de uma adolescente albina. Só terei aos trinta anos, aos cinquenta, aos cinquenta e dois. E isso é bom, isso é bonito. É um acômodo e um privilégio que eu posso me dar. Não tenho teorias, assuntos novos ou banais, temas interessantes, oportunos ou inoportunos. Tenho a leveza de quem não tem assunto e divaga inutilmente. Num sentido bobo e circulante.
Quem aos vinte anos tem assunto? Quem Rimbaud e tem toda a sua obra aos dezessete?
É como se todos os assuntos fossem desimportantes. Direi eu sobre a vida acadêmica? Direi sobre docentes, discentes, sobre o próprio conhecimento? Falarei sobre os bares e as mulheres da vida? Homens bebâdos e mulheres que se dão por pouco. Criarei teorias elaboradas sobre a desestruturação da família como núcleo societal? Vou dizer então do que? Do feminismo, de política, da moda, da noite, de computadores, filmes, cozinhas, garagens, espaçonaves, pedras, leis de trânsito, tribos africanas, espécies de algas, cores RGB, fabricação de cd´s, confecção de cuecas?
Digo do que vejo então. Que é pequeno e mesquinho, mas é meu.
Vejo um copo, é de vidro e transparente.

Écrivain

Penso que escrever seja um trabalho de velhos. E mais, um trabalho de velhos e sábios. Um trabalho só bem feito depois de muitos anos andados e muitas páginas lidas, mais do que escritas. Mas talvez chegarei a velhice sem ter nada a dizer, e chegue a ler muito sem saber reproduzir ou criar. Talvez eu envelheça e leia sem o privelégios dos dois. Serei um velho mudo, como todos os velhos mudos, e que não dizem nada cotidianamente. Também não terei a sabedoria. Sabedoria essa de escritor que não é sabedoria. Não é ser Platão, Buda, Averrois ou Jesus Cristo. Essa sabedoria tem pouco de prática, pouco ensina e muito inventa daquilo que vê. É anti-sabedoria, é anti-explicativa e amoral. Então, agora, sei que essa sabedoria não é na verdade uma sabedoria, e sei também que essa idade advinda da vivência também não é necessária ser vivida. Então como se envelhece para se adquirir voz e como se adquire sabedoria pra manifestar conteúdo?
Fosse a velhice unicamente uma idiossincrassia e eu há muito era velho, fosse a sabedoria um acúmulo de páginas, então em muito seria sábio, mas a minha vida continua um tropeço de desatenções, malentenções, enganos e tragédias cotidianas, cumulativas todas para a minha futura velhice. Aquela que talvez depois de meio século eu escreva sabedorias, sabedorias essas que não explicam nada e não ajudam ninguém. Essas sim o caminho para a literatura, a injustificação.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Coucher

Virou-se para o marido e disse: ‘Não me tira a dentadura, não me tira a dentadura, por favor.”. Era um pudor que ainda tinha depois de duas décadas casados. “Não me tira a dentadura”. Nunca a vira sem, nunca. E achava aquele gesto a maior prova de feminilidade da sua esposa. Não a dentadura em si, não lhe importava tanto assim, não com tanta intimidade já compartilhada em tanto tempo. Era o pudor. Era o pudor que encantava. Era uma criança pedindo pra não lhe tirarem a dentadura.
Daí ela se deitou, como fizera tanto já. E se amaram em desgraçada compaixão.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Capítulo 1.

Tive que começar tudo de novo. Do zero. Essa era a única chance. Um novo começo é o pior dos começos, pois se está tentando corrigir uma tentativa frustrada de algo. Algo que talvez até achasse estar correto. Tento corrigir e começar de novo.
Começo assim portanto.
O primeiro amor é uma desmistificação. Ele serve com o propósito de ensinar o básico e enterrar sonhos infantis de Hollywood. A cultura pop, o cinema, as novelas, as músicas, é justamente o contrário que você aprende e vive. Você vive o cotidiano, o tesão esfria, vira uma doce fraternidade incestuosa, você jura amor eterno e ele não dura mais que um capricho. O segundo amor é mais maduro, porém mais desiludido, daí pra frente tudo se transforma em sexo e companhia, é um amor telúrico, e você se suja na terra que tem aos seus pés. E o décimo amor é o que? Ainda é amor ou uma convenção de sexo? É um trato de covardia?
Penso essas coisas pois penso em Tomas triste na janela...
Mentira, não vejo Tomas, nem Teresa, nem Penélope, Odisseu, nem Teseu e quem quer que fosse, deixando pra trás, pra encontrar Baco.
Mas é uma cena noturna, e é um fragmento de tudo, é um ponto qualquer. E nesse ponto ocorre assim, dois pontos:
Amaram-se vestidos, não sei se é possível amar vestido, parece uma contradição em termos, a nudez parece-me tão essencial. Mas amaram-se vestidos, conservando uma pureza que não era a ele que queria entregar. Não era para ele quem ela teria esperado tanto. Dava a língua, dava o suor, dava a unha, dava o toque, dava o ventre fechado, mas, ainda assim, algum ventre. Queria, sei que queria, mas não podia e não o fez. Tinha um rosto sereno, sereno demais, e, por isso, incompreensível. Parecia feliz, não só satisfeita, não só excitada, em seu rosto não era só a marca e o semblante puro do que só é desejo. Não, era mais, tinha um rosto de felicidade, e por isso me confunde tanto. E depois do quase-amor, feito vestidos, ela deitou-se sobre seu braço com aquele rosto de felicidade enquanto ele lhe era carinhoso. Nesse instante o rosto dela era de felicidade e sono, e ficou assim por algumas poucas horas. É-me estranho porque em todo momento o seu rosto foi de felicidade, de felicidade, e não concebo que tivesse confusão ou outros sentimentos ali. Não vi dúvida em seus olhos, não senti medo na sua postura, mesmo sendo receosa em cada passo, não vi a pura volúpia descontrolada. O seu rosto possuía uma serenidade qualquer e duvido que fosse o inocente descontrole do momento.
Até que, depois de algumas horas nos braços dele, lhe sugeriu que estava na hora de ir.
No outro dia tratou apenas diplomaticamente. Disse assuntos vagos, desimportantes, conversou com a educação dada a conhecidos semi-inoportunos. Foi sempre essa a postura que o tratou por isso a difícil maneira de lê-la.
E nesse ponto os observo, e são todos segredos. Júlia é seu nome, havia me esquecido de mencionar, talvez não fosse importante antes, mas é importante agora, e ela é quem observo agora na janela.
Acordava, era oito horas, era um dia de domingo e hoje viajaria, estava empolgada, sentia um medo terrível, medo de todas as coisas que podiam dar errado, mas esse medo só a deixava mais contente pela coragem que encontrava pra encarar tudo. Ligou o rádio, era época de carnaval e tocava uma estranha marchinha "sentimentos passam como o vento, são coisas do momento, são chuvas de verão", e encontrava conforto em tudo, a marchinha era como um conselho divino, mostrando que agia corretamente, o medo que ela sentia, junto com a excitação, fazia com que buscasse validação pra seus atos em tudo que via. Sabia a importância que esse dia tinha e como esse dia mudaria todos os outros.
E tinha velhos dezoito anos.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Sonnet

O seu sorriso é puro como uma analogia mal feita
e sempre que você se deita eu compartilho meu futuro
e com seu sussuro nosso destino se estreita
enfeita os desvarios desse nosso torto rumo.


No fundo a verdade nos espreita
as dificuldades pra descoberta desse outro mundo
e enquanto meu corpo te esquenta,
nossa realidade se alimenta e em você eu durmo.


E quando essa realidade se aproveita,
e a distância faz que acertemos nosso prumo,
como chumbo, o que é fato se ajeita.


Assim, os desejos, que antes em cima do muro,
se tornam covardes e, depois, desfeita
do sonho de antes, acorde, eu durmo.

domingo, 13 de maio de 2007

Travailleur


Drôle

Em um mundo perfeito... não sei pensar mundos perfeitos, vejo graça em tudo, até no desastre. Sei que esse mundo não é a melhor das possibilidades, mas vejo graça no asfalto e nas mulheres que se dão por pouco, homens sem dignidade e sem cabelo batendo na porta da casa da dona Maria desesperados prometendo que nunca mais vai acontecer. Vejo beleza também numa tristeza mansa em alguém quer perdeu um amor da vida inteira da semana passada. Vejo graça numa felicidade de uma pessoa velha num balanço. Vejo graça em uma conversa de bar e um gole de álcool e um carinho pequeno. Vejo graça numa lua dividida sentados com a bunda cheia de areia. Esse mundo é um mundo ideal, é só desistirmos das nossas fantasias todas, ou parte delas. O real, o possível, o tangível, é tão delicioso. A possibilidade do toque é melhor que o toque, porque o toque não é a expectativa ou a idéia.
Um amor não pode durar uma vida, porque não é, e não pode ser, todos os nossos ideais. Não pode ser todos os nossos desejos de felicidade. Mas cada pedaço de felicidade pura é o suficiente. Uma coisa como a surpresa inocente do momento. Não sei dizer mundos ideais, mas desejo um mundo ideal e próprio divido, e que animais e concreto possam existir, e que desejo e volúpia possam se dar com a inocência de uma amarelinha ou de pular cordas.
Eu me vejo inocente e longe, em meio a tintas, e um mundo ideal é feito de tintas, é a minha melhor descrição.
Banhos longos, obrigação pouca, felicidade mansa, coração alheio, paredes e chãos de tinta, e um sorriso e felicidade divididas.

Candidement

Comigo você falará sua alma toda, mesmo em silêncio. Eu falarei um dia minha alma toda, e nós não nos esgotaremos porque a alma é infinita. E além disso temos dois corpos que nos será um prazer alegre, mudo, profundo. A alma, ainda, é alguma coisa, um momento, a alma é o brevíssimo instante que se sente, a alma é o beijo enquanto tudo além do beijo, é a perda de fôlego, é o chão que some aos pés, é a Providência, tudo, menos o beijo em si. O beijo não é o contado de lábios, encontro de bocas, estrutura composta por dentes, lábios superior e inferior, palato, língua. O beijo também não é a idéia de beijo, não é a estrutura ou a lei que a rege. O beijo não é mesmo o ato ou síntese do momento apaixonado. Ele é a falta de chão, é a impossibilidade da explicação. Não é possível explicar, portanto, o momento, ou a alma que a sente. E nesses momentos se encontra a alma.
E chegará um dia, também, que iremos desistir de dizer a alma, toda ela ou alguma, por motivos vários.

Ubiquité



Ubíquo
do Lat. ubiquu
Adj.,
Que está ao mesmo tempo em toda a parte.