domingo, 25 de novembro de 2007

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Li uma teoria sobre o sexo que me foi espantosa e interessante. A teoria, cujo caráter era da interpretação filosófica ou metafísica, longe da metodologia científica, dizia, trocando em miúdos – e eu sempre imaginei o porquê de trocar em miúdos quereria dizer sobre algo de maneira rápida ou resumida, enfim – a teoria dizia que os homens brancos – aposto que os homens brancos ocidentais, caucasianos de origem judaico-cristã, aureolados pelo ótica burguesa do capitalismo, essas coisas das críticas institucionalizadas, e não o caucasiano dos Bálcãs, por exemplo, enfim, divago de novo – dizia que os homens brancos não sabiam amar, pois nunca se entregavam a cópula de maneira total, animal, estando, portanto, nunca inteiramente nus. E que isso, obviamente, era ruim. E que só os negros sabiam entregar-se completamente – o que, na minha cabeça, pressupunha certa culpa atávica do autor perante a nossa história, um tipo de complacência e condescendência literária. Vai saber.
Mas não posso concordar com a personagem, que talvez explicite alguma opinião do autor. Todo sexo é feito com roupa, com alguma roupa, com alguma personalidade. O sexo não é o encontro e a entrega animal. A volúpia tem de outras nuances além do óbvio e taxativo encontro entre dois animais.
Se fosse assim seriamos como outros mamíferos, reproduzindo em algumas épocas específicas do ano, quando estivéssemos todos no cio, trepando pelas árvores, geralmente entre maio e junho, pros do hemisfério norte, e algum outro mês pros do sul.
O sexo tem muito de mística, e não é o encontro fortuito e darwiniano de corpos apenas. E a gente nunca fica completamente nu. O sexo carrega em si todas as elucubrações que uma pessoa pode ter durante sua vida, desde a noção de amor, a idéia de liberdade, o mote da libertinagem, a desculpa literária, o refreio psicanalítico, Adão e Eva, e todos os arquétipos.
Os medos, a personalidade, o jogo, a fuga. Não posso achar que estamos nus.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

La Dolce Vita

E tentamos buscar símbolos, significados, em tudo. O cinema é expressão máxima, talvez, da construção simbólica ou metafórica através da imagem. É nossa necessidade.
A primeira cena de La dolce vita, de Fellini é um bom exemplo. Quando o helicóptero sobrevoa o prédio onde estão algumas mulheres acenando, o helicóptero plana e Marcello Mastroianni, um dos maiores símbolos masculinos da história do cinema, abafado pelo som das hélices, pede o telefone das mulheres. É uma cena famosa, explicada geralmente como metáfora para a incomunicabilidade entre os sexos.
Algo óbvio e aparentemente desejado por ambos, como o encontro sexual, visto o aceno das mulheres e o interesse dos homens, não é concretizado por algo que os impede de se entenderem. Claro que essa cena evidencia isso, a tal incomunicabilidade que nutrimos, seja por quais motivos. Mas a cena pode ser percebida também de outras maneiras, contendo outras metáforas.
É possível perceber o helicóptero como um beija-flor, ou como um inseto que voa, que carrega o pólem de um lado a outro, fecundando as flores, o que é delegado a um papel masculino. Isso pode ser suposto pelas características de um helicóptero, como voar, conseguir se manter estável em vôo, como o beija-flor, quanto pelo seu desenho, quase como uma libélula. Por outro lado, o prédio é estático, não pode se mover, fica a mercê daquele que a poliniza. As mulheres, na cena, esperam a aproximação masculina. Se mostram atraentes, assim como uma flor se mostra através de cores ou formas, flertam, tentam a aproximação com aqueles que aparecem. Daí acontece o sabido, a incomunicabilidade se instaura, um diálogo simples não é efetuado e o helicóptero-macho vai embora.
Para completar a alegoria, a cena pode nos propor, através dessas metáforas todas antes ditas, que a natureza e a função masculina e feminina são diferentes. Que nossos anseios e desejos não são congruentes, quase como se fossemos espécies distintas.
Claro que a cena, como todas as cenas do mundo, pode ser interpretada de maneira diferente, e essa é só um ponto de vista.