domingo, 25 de novembro de 2007

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Li uma teoria sobre o sexo que me foi espantosa e interessante. A teoria, cujo caráter era da interpretação filosófica ou metafísica, longe da metodologia científica, dizia, trocando em miúdos – e eu sempre imaginei o porquê de trocar em miúdos quereria dizer sobre algo de maneira rápida ou resumida, enfim – a teoria dizia que os homens brancos – aposto que os homens brancos ocidentais, caucasianos de origem judaico-cristã, aureolados pelo ótica burguesa do capitalismo, essas coisas das críticas institucionalizadas, e não o caucasiano dos Bálcãs, por exemplo, enfim, divago de novo – dizia que os homens brancos não sabiam amar, pois nunca se entregavam a cópula de maneira total, animal, estando, portanto, nunca inteiramente nus. E que isso, obviamente, era ruim. E que só os negros sabiam entregar-se completamente – o que, na minha cabeça, pressupunha certa culpa atávica do autor perante a nossa história, um tipo de complacência e condescendência literária. Vai saber.
Mas não posso concordar com a personagem, que talvez explicite alguma opinião do autor. Todo sexo é feito com roupa, com alguma roupa, com alguma personalidade. O sexo não é o encontro e a entrega animal. A volúpia tem de outras nuances além do óbvio e taxativo encontro entre dois animais.
Se fosse assim seriamos como outros mamíferos, reproduzindo em algumas épocas específicas do ano, quando estivéssemos todos no cio, trepando pelas árvores, geralmente entre maio e junho, pros do hemisfério norte, e algum outro mês pros do sul.
O sexo tem muito de mística, e não é o encontro fortuito e darwiniano de corpos apenas. E a gente nunca fica completamente nu. O sexo carrega em si todas as elucubrações que uma pessoa pode ter durante sua vida, desde a noção de amor, a idéia de liberdade, o mote da libertinagem, a desculpa literária, o refreio psicanalítico, Adão e Eva, e todos os arquétipos.
Os medos, a personalidade, o jogo, a fuga. Não posso achar que estamos nus.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

La Dolce Vita

E tentamos buscar símbolos, significados, em tudo. O cinema é expressão máxima, talvez, da construção simbólica ou metafórica através da imagem. É nossa necessidade.
A primeira cena de La dolce vita, de Fellini é um bom exemplo. Quando o helicóptero sobrevoa o prédio onde estão algumas mulheres acenando, o helicóptero plana e Marcello Mastroianni, um dos maiores símbolos masculinos da história do cinema, abafado pelo som das hélices, pede o telefone das mulheres. É uma cena famosa, explicada geralmente como metáfora para a incomunicabilidade entre os sexos.
Algo óbvio e aparentemente desejado por ambos, como o encontro sexual, visto o aceno das mulheres e o interesse dos homens, não é concretizado por algo que os impede de se entenderem. Claro que essa cena evidencia isso, a tal incomunicabilidade que nutrimos, seja por quais motivos. Mas a cena pode ser percebida também de outras maneiras, contendo outras metáforas.
É possível perceber o helicóptero como um beija-flor, ou como um inseto que voa, que carrega o pólem de um lado a outro, fecundando as flores, o que é delegado a um papel masculino. Isso pode ser suposto pelas características de um helicóptero, como voar, conseguir se manter estável em vôo, como o beija-flor, quanto pelo seu desenho, quase como uma libélula. Por outro lado, o prédio é estático, não pode se mover, fica a mercê daquele que a poliniza. As mulheres, na cena, esperam a aproximação masculina. Se mostram atraentes, assim como uma flor se mostra através de cores ou formas, flertam, tentam a aproximação com aqueles que aparecem. Daí acontece o sabido, a incomunicabilidade se instaura, um diálogo simples não é efetuado e o helicóptero-macho vai embora.
Para completar a alegoria, a cena pode nos propor, através dessas metáforas todas antes ditas, que a natureza e a função masculina e feminina são diferentes. Que nossos anseios e desejos não são congruentes, quase como se fossemos espécies distintas.
Claro que a cena, como todas as cenas do mundo, pode ser interpretada de maneira diferente, e essa é só um ponto de vista.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

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Então pensei que eu não era apto a viver. Pensei isso por uma lógica simples, talvez por isso, quase verdadeira, universal. Pensei o seguinte, eu não sou ou estou apto a viver. Pensei que assim como algumas pessoas não nasceram para ser matemáticos ou engenheiros, ou como alguns não eram nascidos para a beleza ou para a boa forma física, assim como alguns não tem a disposição para serem atletlas ou pensadores. Pensei então que alguns não tem a aptidão para viver, para enfrentar as mazelas de tudo, da sua própria cabeça, do convívio social, dos conceitos de tudo, da moral, da ética, do corpo, da libído, da preguiça, do sono, do medo, seja do que for. Algumas pessoas tem a inabilidade natural e não sabem se sustentar com o peso do dia. Assim como só é possível aguentar o desagradável por pouco tempo, assim a vida se pesava sobre mim, como responsabilidade que afoitamente queremos nos livrar. Entendi, então, que não estou apto a viver e, portanto, sei que meu tempo não é muito e que em algum momento desistirei.
E isso, essa epifânia pobre, aconteceu as seis e meia da manhã, dentro de um ônibus, voltando pra casa por um motivo qualquer. Percebi que, mesmo não tendo nada para se sentir satisfeito, não tinha nada para reclamar, mas ainda assim, percebi o quanto era desagradável toda existência possível. Da minha realidade imediata em uma cidade pequena até um pretenso futuro promissor em qual lugar seja. Mais do que sentido não visto em tudo isso, não tive vontade. Não foi a falta de explicação ou razão para um esforço, não foi a consciência da desimportância de tudo e todos, e da inevitabilidade da morte, e da fugacidade do tempo, ou qualquer iluminação sobre os propósitos da vida. Foi só cansaço. E também não era aquele tipo de cansaço que se passa com banho, férias ou uma boa noite de sono. Era a falta de vontade para as descobertas vindouras, por um tédio da alegria, do bom, do gostoso, do proveitoso, e uma desistência atencipada do ruim, do triste, do medo, da raiva.

sábado, 21 de julho de 2007


Hoje meu avô está na UTI da Beneficiência Portuguesa. Sua condição? Foi desenganado pelos médicos. Porém, não é uma história trágica, é uma história comum. Hoje ele tem noventa anos completos em março último. Minha avó, Joana Thenório, dona de um nome que corresponde ao seu caráter, está desolada. Mesmo sendo compreensivel e anunciada sua morte, dadas a idade avançada e as condições de saúde do meu avô, ela, minha vó, continua apegada e em negação, não aceitando os fatos que se dão, mesmo sendo outro corpo que ela terá que enterrar, depois de tantos outros.
Foram cinquenta anos de casamento, o primeiro dela, o segundo dele.
Em 1984, ano do meu nascimento, minha vó foi diagnosticada com cancêr de mama. Ela passou por essa dura época sozinha longe de casa, teve que fazer a cirurgia e o tratamento radio e quimio-terápico sem a presença de parentes. As filhas eram muito novas, o marido, meu avô, tinha que trabalhar e cuidar dos filhos.
Enquanto ela sofria os traumas severos do tratamento, ele arrumou uma amante. Sabe lá quantas outras foram, essa era alguma. Era uma vizinha. Não sei mais detalhes disso. Todas as filhas sabem dessa história - e de outras - e ressentem o pai por isso. Desconfio também que a minha avó saiba, mesmo permanecendo não dito pela família.
Penso que esse texto seja sobre ressentimento, mágoa, coisas assim. Por muitas vezes vi nos olhos dela o desamor e o desafeto de alguém que consumiu tanto a sua vida, contudo tudo isso importa tão pouco hoje. Ela vai, misericordiosamente, todo santo dia visitá-lo, mesmo, talvez, ele não entendendo mais o que se passa.
Depois de noventa anos vividos, todas as guerras do séc. XX vistas, todas as mudanças cotidianas, da privada ao celular, tudo, quase todos os presidentes, duas capitais, tantos nomes, tantas mulheres, tantas saias, tanto desgosto, tantos enterros, e depois de tudo, penso o quão desnecessário seja ressentir.
O luto desculpa tudo, todos os erros.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Os alumbramentos do corpo e a arte de amar



O que é o amor? Será que eu sei? Amar é dividir a comida do próprio prato, sem negação, sem egoismo, é a sua comida ser também de outro alguém. Mas como é difícil dar de alimentar pra outra gente. Penso que amar é analógico, é fictício. Penso na rua, nas pessoas, nos desgostos, nas vulgaridades, no cotidiano, nas continuidades, no bar, no moço, na moça, no corpo, no copo, e não há amor em nenhuma dessas coisas. Há prerrogativas, prazeres, medos, volúpias, melodias, alcalóides. Não amor. Há amor na dedicação de um prato feito pra quem se ama, na comida que se tira da boca com carinho, pra uma boca que pede. É a vontade e a negação de si mesmo. É a constante negação de quem se é. E ama-se intuitivamente.
José amou Clara, que o amou com prazo de validade. Clara amou mais alguém e mais outro, e achou de uma bela brincadeira. José então amou Joana, mas tinha medo, fez pela metade, disse as coisas erradas, magoou a coitada. Joana ficou triste, amou e não pode mais, decidiu amar outro e não conseguir amar mais ninguém.
Amor é espólio pouco, é o pouco resto e a agradecida renúncia de seus poucos alqueires. É o alumbramento do corpo, é o alumbramento da descoberta de outro corpo, e é a capacidade e a educação sentimental, é a educação pela pedra, é a arte de amar, é o encontro de solidões, é a ditadura do afeto, e são todas as revoluções, e são todas as religiões.
É um corpo visto e a cena do vestido no chão, são as mãos e as pernas tremendo, é o soluço contido, são todas as covardias do mundo.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

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Quanto mais eu penso em mulheres, em escrever sobre elas, mais algo atávico em mim surge, emerge, com extrema arrogância. Emerge a volúpia, o desenfreio do desejo, penso em seios, quero meter a cara entre pernas sem pudor, abertas a mim sem remorso, quero seios que me alimentem de algo que não é leite, e que não é alimento, mas que me faz viver, pelo menos por hora, pelo menos como motivo de curta duração. Depois terei raiva, de todas elas, maldirei por desinteresse, maldirei por falta de ternura e incompreensão, maldirei pelo muro que separa o que é exclusividade feminina e o que é limitação masculina. Depois não terei mais raiva, e será só uma indiferença cínica e britânica, com uma educação e falsidade européias. E depois de tantos estágios de atuação, depois do primeiro, segundo e terceiro atos, tudo se repetirá, voltarei ao desejo da mulher que se curva a mim em gesto de arco, reclinando-se nua a mim numa reverência invertida, dando-me as costas e o quadril exposto.
Foi assim com Catarina, e Catarina é só um nome mentiroso, coloque aqui dezenas de outros nomes, foram tantas que algum desses nomes provavelmente acertará. Catarina não foi a primeira, nem a última, nem a mais importante, não há nada que a faça verdadeiramente marcante, nem digna de ser narrada, mas é essa desimportância que me faz querer dizer como são as experiências de um homem pouco decente, pouco sensível, cristalizado nos gestos, nos gostos e na ternura. Por que me tornei assim? Não sei. Não me preocupo na improdutiva labuta do escrutínio das neuroses. Não fui acostumado a psicanálise.
Mas digo de Catarina, possuí, como possuí todas, em camas alheias, nunca na minha cama, por uma razão simples, meu quarto sempre está muito empoeirado, e isso não é uma alcova atraente. Apesar que, analisando melhor - e com medo de cair nas análises psicanalíticas - acho que não era só isso. Penso que não podia deixar-lhes tomar pose da minha cama, possuir esse móvel tão simbólico, tomarem a minha cama de assalto, com a vólupia que me tomaram tantas vezes o corpo, seria um atestado de possessão que não permitiria que tivessem. Dou o corpo, pois é inevitável dá-lo, mas a cama, símbolo tanto da minha libído quanto do meu sossego, essa não poderia dar jamais.
E por isso só amei Catarina no mato, em sessões matutinas, as terças e quartas, e as vezes no cinema, nas matinês de sábado.
No cinema sempre se mostrou mais divertido, leve, as matinês sempre tinham poucas pessoas, era um cinema de bairro, cinema esse que as estréias sempre vinham com atraso, as estréias eram velhas de véspera.
Os filmes eram pouco importantes, nunca liguei para as imagens que se passavam na tela, por mais atraentes que fossem, sempre fui com o objetivo da posse voluptuosa, e que, quando tomado pelo desejo da carne, pouca coisa pode desviar nossa atenção. Talvez, só um acidente qualquer ou alguma morte na família desviaria do objetivo incial, algum motivo raro e caro, que, ainda assim, nos faz maldizer o momento inapropriado pra tal fato ter ocorrido, e se, a mãe, a vó, o tio ou o cachorro, não poderiam ter falecido duas horas depois. Pois assim se dá o tesão, sem nem mesmo respeitar o luto. Felizmente no meu tempo com Catarina, ninguém morreu, portanto nunca fui impedido de possuí-la.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Journal

Elenildo João de Souza, 47 anos
vivia em um albergue qualquer
com Elineide Almeida, sua mulher

Era uma terça feira igual
e, para morrer, saltou desesperado
do terceiro andar do Shopping Eldorado

A Polícia não sabe o motivo
para seu suicídio, mas
é só pensar em meses atrás

Estava desempregado mas não justifica
e agora se tornou alguma notícia
uma nota no Jornal do Brasil

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Apocalipse 1:9–11


Eu, João, irmão vosso
e tanto companheiro na aflição
no reino, no Senhor nosso
e de Jesus o Coração


Estava em Patmos, na ilha
pela palavra de Deus
e testemunho de Jesus
uma voz ditou o caminho dos meus
pelo homem da cruz.


Um voz de trombeta insistia a dizer:
"O que vês, escreve-o num livro
e envia a sete igrejas
para o Senhor bel-prazer


e para essa missão te peço
mande primeiro para Éfeso.
A Voz do diretor diz e ardes.
leve a mensagem também a Sardes
A Esmirna mande e tão completo
A Filadélfia e Laodicéia
tenham um rumo certo
por uma grande odisséia.
e Pérgamo, a última
percorrer todo o deserto.".

sábado, 16 de junho de 2007

Rois et Reine

Vamos virar rainha e rei
com a coroa que eu te dei
a gente monta o castelo aqui
no fundo do meu quintal
a gente usa sobra das coisas e enfrenta o mal

uma cadeira vira torre, uma mesa
vira ponte, a toalha um belo vestido
monto um castelo colorido
e um grande arsenal

e o gato vira bruxa, o cão vira dragão
por ti enfrento todos e por dom sebastião

Vem, vou ser Dom Diniz
te mostro a cicatriz
daquela outra menina
ai cretina, que fui infeliz

e de dia
vou com a cristandade enfrentar os mouros
a noite
o teu corpo arde e em você eu morro
e tudo assim
e não saio do meu jardim

com o nosso sangue uma grande dinastia
eu, Dom João, você Dona Maria

e de plástico o meu exército, só pra me exibir
você diz que é brincadeira de mal gosto
eu espero até agosto
pra poder partir.

e enfrento a morte
com Deus e a sorte
até o portão, a contra-gosto
pra me despedir.

sábado, 9 de junho de 2007

As aventuras do detetive Bob Dylan e seu cão Rufus Wainwright.

Era uma noite de 62, o detive Dylan, Bob Dylan, está mais uma noite em seu escritório a ler Rubem Braga e escutar o bom e velho som de Nina Simone. Vivia entediado. O último caso que lhe aparecera havia resolvido em tempo recorde, com muita astúcia. Isso devia fazer com que ganhasse algum prestígio, deveria fazer com que melhorasse a sua reputação. Mas talvez as pessoas não tivessem mais problemas ou desconfianças. Então Bob só espera quando ou aquela loira deslumbrante adentre a porta chorando esperando salvação, ou o Chefe de Polícia solicite a sua esperteza em algum assassinato. Mas não acontecia. Bob só esperava. Imaginava cenas e situações, ansiava colocar seu gênio em prática.
Imagina situações. Era tudo branco, claro, alvo, como a pele de uma adolescente albina.
Uma mulher adentra a porta, ela é loira, morena, as duas coisas juntas, nenhuma dessas coisas. Cabelo curto, longo. O marido desapareceu, o amante morreu, a irmã gêmea se suicidou. Era Jean Harlow, era Diane Keaton, era Penélope Cruz.
Pobre Bob. É sábado a noite. Pospunha indefinidamente a volta pro seu apartamento no East Village. Encontraria Rufus, seu cão da raça Wainwright.
Pobre Bob, alguém devia dizer-lhe pra ser mais pró-ativo. Procurar os crimes na rua, diretamente onde acontecem. Não adianta em nada esperar em seu escritório.
Dez para as três da manhã. Decide ir para o seu apartamento. O disco High Priestess of Soul tinha tanto tocado em loop que não sabia mais qual era a faixa um.
Levantou-se, dirigiu-se a porta, foi então quando...
Foi quando saiu e fechou a porta, sem metáfisica envolvida.
Chegou a frente de seu prédio, era um apartamento bom, tendo em vista seus rendimentos e sua condição de vida. Fora pressente de um empresário, Clovis Bornay, rico atuante da área da moda.
Em frente a seu prédio foi abordado por seu amigo e também porteiro, J. Nicholson.
-Bob, Bob, wait.
-Hi, Jack, what´s up?
-Did you know what just happened with the daughter of Madame Bovary?
-No, I just came now, in this second.
-She was found lay down on her back, dead, with a note, "Ceci n´est pas une decedée"
Bob tinha algum conhecimento em frânces, conhecia uma jovem chamada Edith.
Procuraria Edith pela manhã.


Fim do capítulo 1.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Film

Análise sobre o filme O enigma de Kaspar Hauser, do alemão Werner Herzog, para uma aula qualquer de sociologia.




Cada um por si e Deus contra todos.
ou
Emílio
ou
tentativa
ou
reticências

A sociologia tem um aspecto definidor, ela é um ramo do conhecimento que percebe, ou tenta perceber, semelhanças entre os homens, entre os grupos sociais, semelhanças essas que nos categorizem. Claro, essa é uma definição bastante leviana, imprecisa, generalizante e injusta, mas por enquanto fiquemos com essa definição.
Sempre me pensei como um indivíduo único. Sim, com pleonasmo e tudo. Sempre me vi tomando decisões diferentes daquelas dos meus pares, sempre me achei agir diferente daqueles ao meu redor, tivessem ou não as mesmas condições, não importava, era o diferente. Achava-me mais maduro, possuidor de qualidades que outras pessoas não possuíam. Enfim, mesmo esse parágrafo é como outros tantos parágrafos, dizendo e refletindo desejos e aspirações como tantos fazem e fizeram.
Mesmo a minha história pessoal, única e instranferível, vejo-a como acontece semelhantemente tantas e tantas vezes, todos e todos os dias. Mesmo a minha situação não me singulariza.
Pois bem, o tempo passa e essas impressões de singularidade vagueiam, diminuem. É criada uma consciência de que os tipos se repetem, você passa a classificá-los, de maneira apurada ou não, de maneira justa ou não. Você percebe que mesmo você, em toda sua singularidade, se classifica em um tipo, seja qual ele for. Você possui seu grupo e pouco transita para outros grupos. Julga esses outros grupos, acha-os ruim, julga os seus gostos, suas roupas, enfim, esses definidores de similaridades. Uma similaridade, uma identificação, comprada, mas ainda assim uma identificação.
O enigma de Kaspar Hauser (Jeder fur sich und Gott gegen alle), do alemão Werner Herzog, é sobre Kaspar Hauser, cuja vida é envolta em mistérios. Ele, Kaspar, viveu aproximadamente as duas primeiras décadas de sua vida em uma gruta, sem contato social, não tendo contato verbal com outras pessoas, fato esse que, obviamente, o impede de aprender uma língua, a não ser algumas poucas palavras, como "cavalo", que lhe é ensinada no começo do filme por um anônimo "tratador", na falta de um termo melhor, já que não é educação, no aspecto comumente associado a palavra, aquilo que lhe é dado. Depois de um tempo Kaspar é levado para uma cidade, Nuremberg, e é deixado na praça com uma carta endereçada a um capitão da cidade, explicando parte de sua história. Com ele é achado alguns outros poucos objetos, entre esses objetos alguns que indicavam que pudesse pertencer a uma família nobre.
Kaspar é, então, educado. É ensinado a ele falar e escrever, aprendendo, portanto, uma língua. Aprende ainda uma outra linguagem, a da música. Passa, também, por um processo de socialização, aprende costumes e etiquetas, aprende a portar-se a mesa, veste-se como todos os outros, quando antes mal vestia-se.
Contudo, Kaspar ainda mantém certos traços de sua vida anterior, apresenta dificuldade de comunicação, muitas vezes não conseguindo expressar certas emoções que sente. Não consegue, ainda, definir, por um tempo, com precisão o que é real daquilo que é sonho. Tem uma lógica infantil, lúdica.
Kaspar é a quintessência do bom selvagem, é sempre a alma boa e gentil em contato com o social, cuja influência o corrompe. É sempre tratado como o ser naturalmente bom, cuja lógica infantil tenta entender o mundo em contraposição ao cinismo das pessoas cuja classe social é mais elevada. É o caso de certos personagens, como o nobre que o apresenta na festa como uma curiosidade, fazendo com que sua condição seja apenas um passatempo para "civilizados", ou o padre, se me recordo bem, que tenta ensinar lógica a ele, sempre desrespeitando suas dúvidas sinceras. Sempre os personagens mais pobres ou simples são retratados como bons. É o exemplo da família que o acolhe e o socializa.
É um discurso ainda com esses resquícios, que contrapõem de maneira maniqueísta o ser natural e o ser social, quando somos claramente, e, indubitavelmente, seres naturais e seres sociais, mesmo em uma sociedade primitiva, somos sempre seres relacionais, seja com o que ou quem essas relações. Essa relação dialética entre o ser natural e social é o que nos molda. Somos, ainda, criadores de símbolos, de signos, de significados, justamente para que essa relação se torne mais produtiva, mais próxima, agregadora.
Esses aspectos de nossa convivência, essas singularidades e especialidades de nossa espécie, nos tornam únicos, capazes de registrar a nossa própria história.
Porém, mesmo sendo únicos como espécie, em que medida somos únicos como indivíduos? Como poderíamos perceber isso nos dias de hoje, quando nos definimos por nossas profissões. Quando alguém pergunta "O que você é?" a resposta sempre vem como uma profissão, "sou economista", "sou bibliotecário". Se essa é a maneira como nos definimos, nos inserindo em um grupo, em uma função, como poderíamos, ou poderemos, nos perceber como um ser completo?
Essa talvez seja a grande confusão e incoerência do meu texto. Definimos, ou tentamos definir, ou perceber, a sociedade inteira, ou os processos sociais, tomando por base uma única vida, uma experiência única, individual, sem conseguir trazer a luz do esclarecimento outras tantas situações, justamente por não saber o quão válidas são.
Kaspar Hauser existiu, sua história é exemplar pra entendermos os processos de socialização. A maneira como o contato com o outro nos molda. A maneira como os signos e os símbolos são aprendidos, subjetivados, internalizados.
E a minha singularidade conseguiu criar, com todos esses símbolos que nos é convencionado, esse texto mal ajambrado, mal construído, porém cheio de dúvidas sinceras. Essa, talvez, sendo a maior marca tanto da singularidade, quanto da espécie, a capacidade de questionamento.

domingo, 3 de junho de 2007

Bonheur


A felicidade tem uma característica espantosa. Ela consegue nos fazer sentir desprotegidos. É como se fossemos novamente crianças e, a medida que a felicidade nos alcança, a sensação de vulnerabilidade se instala. A sensação é a de sermos crianças, com um brinquedo novo em mãos, em que a qualquer momento alguém possa vir e roubar-nos o brinquedo, ou a felicidade, sem que nada possamos fazer. Sem as explicações ou racionalizações dos adultos. Sem leis que controlem isso e que punam os culpados. Sem uma ética que dite comportamento. E sem uma moral que condene a perda do sentimento.
Como crianças, voltamos a um estado choroso e desiludido, esperando que os pais nos conforte, mesmo sendo, mesmo alí, inútil. E nos contorcemos em birras.
A felicidade tem esse caratér fugídio. E as vezes o medo de perdê-la é maior que o tanto que a aproveitamos. Somos todos bastante covardes, vendo por esse prisma.

sábado, 2 de junho de 2007

Écrivain


Comecei a ler por um motivo simples. Por esnobismo. Sempre me pareceu coisa de gente de classe o hábito da leitura. Todos aqueles nomes difíceis, todo aquele conhecimento acumulado que mais parecia ferramenta de superioridade ecônomica ou de classe do que algo que seja inteligência ou sabedoria, no sentido de algo que seja realmente útil pra uma existência, sei lá, melhor. Ainda assim, os livros exercem um fascínio estético espantoso, o formato retangular, as folhas sendo uma a uma, ou muitas a muitas, viradas, a idéia de alguém te observando e te admirando de longe, a possibilidade de se esconder atrás de uma capa qualquer e poder observar o ambiente. Quantas vezes aconteceu de o que eu lia ser desimportante, o pé na mesa ou a mão no queixo, a perna cruzada serem mais importantes. A mística que se constrói na sua personalidade quando alguém te associa aos livros que você lê.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Rien

Eu não tenho nada a dizer. Isso é tão nítido, alvo, claro, raro, como a pele de uma adolescente albina. Só terei aos trinta anos, aos cinquenta, aos cinquenta e dois. E isso é bom, isso é bonito. É um acômodo e um privilégio que eu posso me dar. Não tenho teorias, assuntos novos ou banais, temas interessantes, oportunos ou inoportunos. Tenho a leveza de quem não tem assunto e divaga inutilmente. Num sentido bobo e circulante.
Quem aos vinte anos tem assunto? Quem Rimbaud e tem toda a sua obra aos dezessete?
É como se todos os assuntos fossem desimportantes. Direi eu sobre a vida acadêmica? Direi sobre docentes, discentes, sobre o próprio conhecimento? Falarei sobre os bares e as mulheres da vida? Homens bebâdos e mulheres que se dão por pouco. Criarei teorias elaboradas sobre a desestruturação da família como núcleo societal? Vou dizer então do que? Do feminismo, de política, da moda, da noite, de computadores, filmes, cozinhas, garagens, espaçonaves, pedras, leis de trânsito, tribos africanas, espécies de algas, cores RGB, fabricação de cd´s, confecção de cuecas?
Digo do que vejo então. Que é pequeno e mesquinho, mas é meu.
Vejo um copo, é de vidro e transparente.

Écrivain

Penso que escrever seja um trabalho de velhos. E mais, um trabalho de velhos e sábios. Um trabalho só bem feito depois de muitos anos andados e muitas páginas lidas, mais do que escritas. Mas talvez chegarei a velhice sem ter nada a dizer, e chegue a ler muito sem saber reproduzir ou criar. Talvez eu envelheça e leia sem o privelégios dos dois. Serei um velho mudo, como todos os velhos mudos, e que não dizem nada cotidianamente. Também não terei a sabedoria. Sabedoria essa de escritor que não é sabedoria. Não é ser Platão, Buda, Averrois ou Jesus Cristo. Essa sabedoria tem pouco de prática, pouco ensina e muito inventa daquilo que vê. É anti-sabedoria, é anti-explicativa e amoral. Então, agora, sei que essa sabedoria não é na verdade uma sabedoria, e sei também que essa idade advinda da vivência também não é necessária ser vivida. Então como se envelhece para se adquirir voz e como se adquire sabedoria pra manifestar conteúdo?
Fosse a velhice unicamente uma idiossincrassia e eu há muito era velho, fosse a sabedoria um acúmulo de páginas, então em muito seria sábio, mas a minha vida continua um tropeço de desatenções, malentenções, enganos e tragédias cotidianas, cumulativas todas para a minha futura velhice. Aquela que talvez depois de meio século eu escreva sabedorias, sabedorias essas que não explicam nada e não ajudam ninguém. Essas sim o caminho para a literatura, a injustificação.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Coucher

Virou-se para o marido e disse: ‘Não me tira a dentadura, não me tira a dentadura, por favor.”. Era um pudor que ainda tinha depois de duas décadas casados. “Não me tira a dentadura”. Nunca a vira sem, nunca. E achava aquele gesto a maior prova de feminilidade da sua esposa. Não a dentadura em si, não lhe importava tanto assim, não com tanta intimidade já compartilhada em tanto tempo. Era o pudor. Era o pudor que encantava. Era uma criança pedindo pra não lhe tirarem a dentadura.
Daí ela se deitou, como fizera tanto já. E se amaram em desgraçada compaixão.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Capítulo 1.

Tive que começar tudo de novo. Do zero. Essa era a única chance. Um novo começo é o pior dos começos, pois se está tentando corrigir uma tentativa frustrada de algo. Algo que talvez até achasse estar correto. Tento corrigir e começar de novo.
Começo assim portanto.
O primeiro amor é uma desmistificação. Ele serve com o propósito de ensinar o básico e enterrar sonhos infantis de Hollywood. A cultura pop, o cinema, as novelas, as músicas, é justamente o contrário que você aprende e vive. Você vive o cotidiano, o tesão esfria, vira uma doce fraternidade incestuosa, você jura amor eterno e ele não dura mais que um capricho. O segundo amor é mais maduro, porém mais desiludido, daí pra frente tudo se transforma em sexo e companhia, é um amor telúrico, e você se suja na terra que tem aos seus pés. E o décimo amor é o que? Ainda é amor ou uma convenção de sexo? É um trato de covardia?
Penso essas coisas pois penso em Tomas triste na janela...
Mentira, não vejo Tomas, nem Teresa, nem Penélope, Odisseu, nem Teseu e quem quer que fosse, deixando pra trás, pra encontrar Baco.
Mas é uma cena noturna, e é um fragmento de tudo, é um ponto qualquer. E nesse ponto ocorre assim, dois pontos:
Amaram-se vestidos, não sei se é possível amar vestido, parece uma contradição em termos, a nudez parece-me tão essencial. Mas amaram-se vestidos, conservando uma pureza que não era a ele que queria entregar. Não era para ele quem ela teria esperado tanto. Dava a língua, dava o suor, dava a unha, dava o toque, dava o ventre fechado, mas, ainda assim, algum ventre. Queria, sei que queria, mas não podia e não o fez. Tinha um rosto sereno, sereno demais, e, por isso, incompreensível. Parecia feliz, não só satisfeita, não só excitada, em seu rosto não era só a marca e o semblante puro do que só é desejo. Não, era mais, tinha um rosto de felicidade, e por isso me confunde tanto. E depois do quase-amor, feito vestidos, ela deitou-se sobre seu braço com aquele rosto de felicidade enquanto ele lhe era carinhoso. Nesse instante o rosto dela era de felicidade e sono, e ficou assim por algumas poucas horas. É-me estranho porque em todo momento o seu rosto foi de felicidade, de felicidade, e não concebo que tivesse confusão ou outros sentimentos ali. Não vi dúvida em seus olhos, não senti medo na sua postura, mesmo sendo receosa em cada passo, não vi a pura volúpia descontrolada. O seu rosto possuía uma serenidade qualquer e duvido que fosse o inocente descontrole do momento.
Até que, depois de algumas horas nos braços dele, lhe sugeriu que estava na hora de ir.
No outro dia tratou apenas diplomaticamente. Disse assuntos vagos, desimportantes, conversou com a educação dada a conhecidos semi-inoportunos. Foi sempre essa a postura que o tratou por isso a difícil maneira de lê-la.
E nesse ponto os observo, e são todos segredos. Júlia é seu nome, havia me esquecido de mencionar, talvez não fosse importante antes, mas é importante agora, e ela é quem observo agora na janela.
Acordava, era oito horas, era um dia de domingo e hoje viajaria, estava empolgada, sentia um medo terrível, medo de todas as coisas que podiam dar errado, mas esse medo só a deixava mais contente pela coragem que encontrava pra encarar tudo. Ligou o rádio, era época de carnaval e tocava uma estranha marchinha "sentimentos passam como o vento, são coisas do momento, são chuvas de verão", e encontrava conforto em tudo, a marchinha era como um conselho divino, mostrando que agia corretamente, o medo que ela sentia, junto com a excitação, fazia com que buscasse validação pra seus atos em tudo que via. Sabia a importância que esse dia tinha e como esse dia mudaria todos os outros.
E tinha velhos dezoito anos.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Sonnet

O seu sorriso é puro como uma analogia mal feita
e sempre que você se deita eu compartilho meu futuro
e com seu sussuro nosso destino se estreita
enfeita os desvarios desse nosso torto rumo.


No fundo a verdade nos espreita
as dificuldades pra descoberta desse outro mundo
e enquanto meu corpo te esquenta,
nossa realidade se alimenta e em você eu durmo.


E quando essa realidade se aproveita,
e a distância faz que acertemos nosso prumo,
como chumbo, o que é fato se ajeita.


Assim, os desejos, que antes em cima do muro,
se tornam covardes e, depois, desfeita
do sonho de antes, acorde, eu durmo.

domingo, 13 de maio de 2007

Travailleur


Drôle

Em um mundo perfeito... não sei pensar mundos perfeitos, vejo graça em tudo, até no desastre. Sei que esse mundo não é a melhor das possibilidades, mas vejo graça no asfalto e nas mulheres que se dão por pouco, homens sem dignidade e sem cabelo batendo na porta da casa da dona Maria desesperados prometendo que nunca mais vai acontecer. Vejo beleza também numa tristeza mansa em alguém quer perdeu um amor da vida inteira da semana passada. Vejo graça numa felicidade de uma pessoa velha num balanço. Vejo graça em uma conversa de bar e um gole de álcool e um carinho pequeno. Vejo graça numa lua dividida sentados com a bunda cheia de areia. Esse mundo é um mundo ideal, é só desistirmos das nossas fantasias todas, ou parte delas. O real, o possível, o tangível, é tão delicioso. A possibilidade do toque é melhor que o toque, porque o toque não é a expectativa ou a idéia.
Um amor não pode durar uma vida, porque não é, e não pode ser, todos os nossos ideais. Não pode ser todos os nossos desejos de felicidade. Mas cada pedaço de felicidade pura é o suficiente. Uma coisa como a surpresa inocente do momento. Não sei dizer mundos ideais, mas desejo um mundo ideal e próprio divido, e que animais e concreto possam existir, e que desejo e volúpia possam se dar com a inocência de uma amarelinha ou de pular cordas.
Eu me vejo inocente e longe, em meio a tintas, e um mundo ideal é feito de tintas, é a minha melhor descrição.
Banhos longos, obrigação pouca, felicidade mansa, coração alheio, paredes e chãos de tinta, e um sorriso e felicidade divididas.

Candidement

Comigo você falará sua alma toda, mesmo em silêncio. Eu falarei um dia minha alma toda, e nós não nos esgotaremos porque a alma é infinita. E além disso temos dois corpos que nos será um prazer alegre, mudo, profundo. A alma, ainda, é alguma coisa, um momento, a alma é o brevíssimo instante que se sente, a alma é o beijo enquanto tudo além do beijo, é a perda de fôlego, é o chão que some aos pés, é a Providência, tudo, menos o beijo em si. O beijo não é o contado de lábios, encontro de bocas, estrutura composta por dentes, lábios superior e inferior, palato, língua. O beijo também não é a idéia de beijo, não é a estrutura ou a lei que a rege. O beijo não é mesmo o ato ou síntese do momento apaixonado. Ele é a falta de chão, é a impossibilidade da explicação. Não é possível explicar, portanto, o momento, ou a alma que a sente. E nesses momentos se encontra a alma.
E chegará um dia, também, que iremos desistir de dizer a alma, toda ela ou alguma, por motivos vários.

Ubiquité



Ubíquo
do Lat. ubiquu
Adj.,
Que está ao mesmo tempo em toda a parte.

sábado, 12 de maio de 2007

Jupe

é um vento de erguer saias
vem, vai, passou, quem viu?

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Avis

Quando escrever é a diferença entre a distância do fim e do começo
da última e da primeira linha
e pra tudo que tinha
tem um instante que não diz nada por consenso.

por que o tropeço
é a infelicidade do pé, que caminha
e toda linha que tinha
é sempre o pé surpreso

toda poesia é isso, é a surpresa
do pé que tropeça e impede
que o verso se diga ou se perca
que é vontade e não cede.

quer dizer, é acidente
felizmente, pro pé,
é sempre o passo presente.

Souscripteur

O amava por sua companhia, e sua habilidade de lhe fazer bem com palavras, e por ser carinhoso, e por saber cozinhar, vivia dizendo essas coisas a si mesma. Mas isso não eram motivos, eram justificativas. Amamos o ser amado independente dessas coisas, independente de qualquer coisa, usamos pretensas qualidades pra legitimarmos nossos sentimentos, pra validar a nossa decisão sentimental, que não tem nada de racional ou proposital, e Júlia sabia disso, a habilidade que ele tem com as palavras, e que as faz tão bem, era também a habilidade que possuía em enganar-lhe, com as mesmas palavras a manipulava diversas vezes, não que tivesse intenção ruim, fazia por que é assim feito todos os dias por todos os casais, é uma dinâmica de poder e mais-amor, batalhas conjugais que só depois de muito tempo fazem vítimas e mostram o perdedor, acontecia, porém, que Alfredo fosse a Inglaterra nesse confronto e Júlia uma pequena tribo africana.
Não era justo e nunca fora justo.

Bon jour

Ficar acordado até tarde
tem uma grande contra-parte
se viver bem é arte,
dormir cedo é poesia.
Pois só se aproveita o dia
e só se vê a romaria
quem se levanta antes das nove.
E só se vê a dona Maria
lavando a calçada
quem conheçe o dia
e não a madrugada.
Por isso dormirei mais cedo,
pro meu olho não pesar,
e conseguir um sono perfeito,
e não as duas acordar.

Eau de vie

Amo-te enfim, com profunda adoração
Mas é por você que finalmente
Não escuto meu coração
São palavras de liberdade
Acabou-se a adoração
Mas o que não mais vejo e falta
Transformou-se em sutil decepção

Finalmente em mim
Digo assim:
Por hora não quero,
Mas juro amor eterno
Prometo que não é o fim

O que a vida reserva, não sei
Mas não minto, mais do que fiz, juro
Em todo breve instante te amei
De um coração eternamente puro

O meu desejo, amigo, seja amante
Não viva a vida mais em mim, seja errante
A sua amada é triste, ferida aberta,
Sou assim, não mereço, uma estúpida cadela

Não viva mais assim, coitado, gosta tanto
Não quero magoar-te, chamou-me tanto e tanto de bela
Que sinto na obrigação de manter-me distante.

Agora já é tarde, te digo
Mas o nosso tempo sobrou em memória
O que sempre carregarei comigo
Será o amor em toda a sua glória

No entanto, bons momentos
Aos 20 vivi com você, que vida
Morri e nasci naquele dia, tantos tormentos
Porém, em breve momento me senti tão querida

Aos 40 não quero me ver tão velha
Prefiro morrer agora, e digo
Só faço isso por você
Meu amante e meu amigo

É por isso que cometo esse ato extremo
Pra você me possuir inteira e lembrar somente
Da beleza desse momento
Do meu sorriso sempre alegre e contente
Não quero o seu sofrimento

Coeur

Emergência no P.S. São Baudelaire dos mal escritores. 00:18, horário de verão.
Entra em cena o Doutor Honóris Causa e a enfermeira Filologia, pra atender o paciente - no caso eu mesmo -.
Doutor - Enfermeira, me dê rápido um dicionário de sinônimos, temos que parar essa verborragia, que se não contida o matará.
Enfermeira - Mas doutor, sem aplicação de um sedativo Drumoniano ele pode ter sérias sequelas. Ele pode desenvolver Mal-de-Paulo-Coelho.
Doutor - Mas a situação é grave, ele já teve ataques de má-literátura crônica antes. Amputemos seu apêndice e seu intróito, deixando apenas os capítulos dois ao seis.
Enfermeira - Ok, doutor. É o melhor para o paciente.
Sobreviveu. Porém a métrica e a rima foram comprometidas. Sofrendo muito de quiasmos.
Seis meses depois, foi diágnosticado câncer de metáfora. Não quis tratamento. Preferiu morrer assim, com a alegoria intacta.

Je suis celibataire

maria, flor do dia, esposa de josé
fazia, como todo dia, já cedo o café
e dizia, com alegria, vem cá meu marido
e ele ia, com nostalgia, de quem continua dormindo

queria, com felicidade, ver o seu homem no campo
ele dizia, com rusticidade, mas quase chorando
sentia certa necessidade, de ver trabalhando
por toda a cidade, e a noite chegando

e ele voltava, e ela fazia
a janta que ele mandava, que ele queria
e ele dizia pra dona maria
no campo, você é a minha flor do dia
todo o mal em seu corpo jazia
e o cansaço que eu passo
some sempre no espaço
e de novo de novo amanhecia

Paresseux

É um dia simples de novembro e o céu é claro e só
sem qualidade alguma
As nuvens cobrem o sol e o dia se faz branco
Caminho distante até a cozinha e lavo as mãos na pia
A louça de ontem ainda espera ser lavada
mas o dia claro e branco não me permite
como uma desculpa de melâncolia

Volto a sentar-me de frente a janela e esperar coisa alguma
Abro um livro e não leio, risco no meu braço palavras de consolo
e depois levanto-me, esperando coisa alguma

Ainda é cedo e não há motivação
não há fome, não há gosto,
só uma vontade de passar o tempo
Ocupo-me das tarefas mais banais, encontrando motivação em uma música perdida

folheio páginas a esmo, leio e me surpreendo
alguns cientistas me dizem como confissão sincera
que o tempo não é nada mais que a transformação da matéria
e que antes de tudo, antes do tempo, tudo não passava de uma sopa primordial
até um grande estouro e algazarra
e dalí chamamos universo

e entendo, mesmo na minha ignorância. que dizer antes é errado,
porque se não há tempo então não há antes
ou depois
e que o tempo é mero acaso, e que o primeiro movimento da matéria, uma possibilidade infíma
sem lógica ou propósito algum
ocorreu a singularidade
e tudo partiu daí
e a partir disso existiu um antes, um depois e um agora

e evito pensar, imerso em minha vida, não entendo a importância.
e não entendo as coisas que falo e elas não sobreviveriam ao escrutínio.

e agora é um dia simples de novembro, de céu claro e só
sem qualidade alguma
e me perco em um tempo remoto, pois vivo um tempo irreconhecível
onde dinossauros habitam o planeta, e tudo é selvagem
e não passa da minha infância
e tudo e todos são de plástico.

recordo-me, quânticamente, da minha velhice
sem lógica
recordo-me do tempo vindouro, sabendo o movimento que a matéria fará
um movimento tão obviamente previsível
e de assustadora realidade
que fico apenas conformado

e nesse dia simples de novembro de céu claro e só
sem qualidade alguma
me desligo e penso em alguma outra coisa
ligo o rádio e, em algum lugar que já vivi, alguém canta

"e como uma bossa nova, hoje é triste, e quero ser feliz
enquanto não há felicidade
com tanta ansiedade
vivo por um triz"

Fatiguer

E teria os mais carinhosos e sinceros elogios a você agora. Imbecil, digo docemente. Imbecil. Escrota. Com toda a doçura existente, é um lixo e um clichê deveras triste. É só uma boçalzinha. E nada mais. Digo isso com toda ternura. Idiota. E tudo soa como gentileza. Amo a sua imbecilidade, amo a cretinice que lateja por seus poros. É uma esquisóide, sem dó de o ser. Vúlgivaga virgem. Não comida e mal sexuada. De uma doçura completa.
Não comida e ressentida. Exala o doce desprazer das que não conhecem uma rola.
E te adoro completamente pela sua ingenua boçalidade.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Platonisme

O escritor é um carente por excelência. Toda essa raça chora suas dores e coloca o singelo nome de ficção. Ficção é o nome para uma realidade que não aconteceu porque não pudemos acontecer. Homero preferia ser Ulisses, Heitor, Aquiles, a ser o próprio Homero. Ninguém mais Fausto ou Mefistófeles que Goethe. O escritor quer, em sua carência, que uma alma feminina venha e diga palavras de amor e ternura, que o tire de sua autocomiseração. Quer uma voz suave que diga “não fique assim, não há a necessidade de ficar assim, estou aqui agora, e serei só bondade e carinho, prometo, não há mais dor que te doa, não há volúpia que não te sacie, não há desejo que não te realize, sou, e sempre serei, sua ouvinte”. E assim essa Pala Atena te sacia e te mima como uma mãe Iemanjá incestuosa.

Capituler

Uma é só amor e amor todo, outra é só desejo e a desejo, aquela é um encanto de indiferença inglesa, aquela também é um encobrimento de sentimentos, num cinismo profissional, ainda outras duas, uma é paixão louca e nenhuma razão, a maior foi um amor infantil. Eu tenho que escrever sobre mulheres, é a única coisa que me ocupa e me preocupa. A observação distante, de tão próximo, da mulher, ou do que elas dizem ser. Do que elas dizem ser mulher e o que elas agem e que é animal. Todas se definem sentimentalmente, e se definem por pathos, todas se definem pela paixão, seja qual for. Todas são volúpia ardente e proteção maternal. É assim que elas se oferecem, é isso que elas acham poder oferecer. Não sei se é de natureza, mas é de propaganda, sem dúvida. Essas mulheres todas, tão pathos, tão apaixonadas, e também apaixonantes, são o contrário do que dizem, são fogo frio, medos diversos, crianças mal cuidadas, homens pela metade, sonhos de consumo, fantasias de casamento, romantismos desastrados, promiscuidades ingênuas, controle e poder sensual e choros sem razão. São desastres. Essa natureza desastrada é o sal da graça. A vista de um homem a mulher é geralmente um desespero de descontrole. Mas isso seria reduzir a mulher a uma dinâmica de borboleta. Ainda assim, são impossíveis de traduzir, não há uma linguagem feminina que eu possa entender. Uma mulher não ama como um homem ama, não ama como os homens sinceros nem como os homens cafajestes, a mulher ama com uma doçura e um cafajestismo dos piores e dos melhores homens, a mulher ama o drama e a possibilidade dramática da situação, o teatro só não foi criado pelas mulheres, pois já atuam de dentro de si para fora no mundo.

Délassement

A linguagem é falha, mas é a melhor tentativa possível pra exprimir sentimento em razão, em estímulo intelectual, e na tentativa vã de comunicar. A experiência artística é uma tentativa falha de exprimir sentimento através de uma linguagem qualquer, seja, a música, as artes plásticas, a literatura, o cinema. Seja Nelson Rodrigues e a classe média adúltera carioca, seja Manuel Bandeira e seu escapismo em novas terras. Seja Nelson Pereira dos Santos e uma cruz, seja Debussy, contratempos e movimentos suaves. Seja Leopold Bloom e seu James Joyce, seja Antoine Doinel e seu François Truffaut. Dizer um amor pungente de ficção, sendo pura abstração, ou dizer um amor pungente de uma vida inteira da semana passada.

Mécroire

Se todos fossem como você
Eu não saberia sofrer
Não teria verdades que magoam
E mentiras pra poder ver
Vem que passa o meu querer

Se todos fossem como você
E eu não mais choraria
Eu teria mil nomes
Adelaide e também Maria
Seria também ainda
Joana de Deus, Antônia da romaria,
E outras tantas, outras tantas
Cilene do Amapá, Francisca da padaria.
Seria uma mulher da rua
Seria de desgosto todo
Comeria carne crua
E viveria dentro do lodo
Porque não teria orgulho nenhum
E seria só amor e pranto
Te daria a minha felicidade e nenhum espanto.
Seria afetuosa como sua mãe
E não lhe maldiria a vida
Voltaria da rua
Trazendo sempre pão e sua pinga preferida
Te encheria a cara e lhe faria os desejos mais sinceros
Me rebaixaria e não teria dignidade
Dignidade é luxo de mulher que não ama
E eu te amo.
E não tenho dignidade alguma
Me permita fazer suas vontades e não ter vontade nenhuma.
Ser sua meretriz e fazer-lhe os gostos
Me sangro se quiser.
Me sangro agora, tiro a minha vida, se quiser
E nada te peço, e nunca te pedirei nada
Não precisa me amar
Nunca me amará como te amo.
E não peço isso
Só me permita ficar ao seu lado e ser sua
Não posso te possuir, mas você me possui
E tudo que peço é que me possua
É tudo, e não pode negar a vontade de alguém que morre de amores.
E eu morro se não me permitir.
Eu morro.
Me mato.
Me mato.

Parement

Distraído vencerei. Com Deus comigo, distraído vencerei. Não verei as mulheres bonitas andando ao meu lado, não verei o sol e a lua, não escutarei o som da chuva. Distraído vencerei, com ou sem Deus, o que me importa? Absorto em minha própria qualidade, distraído vencerei. E não haverá interrupções, grandes verdades ou objetivos grandiosos. Estarei alheio a política, ao mundo, a sociedade. Distraído estarei em meu melhor.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Suja melópeia. diz, bêbado.

Lembro dos dias de quando eu era criança e sempre no dia de ano íam todos os familiares verem os fogos enquanto eu docemente deitava na cama da minha avó hora antes do momento e sem conseguir me conter e esquecendo daquilo que todos esperavam, eu dormia. Quantas crianças dormiram nos dias de ano enquanto foram crianças, e quando despertas não eram mais crianças, e quando, finalmente, conseguiam ficar acordadas, o rito já não significava mais nada, e já eram todos velhos e o rito era visto com um cinismo de bebida.Quando eu era criança e dormia tão bem no quarto de minha avó, lembro da colcha de veludo e a vontade de permanecer acordado. Hoje sou quase adulto, sem responsabilidades, mas me sentindo pesado, cínico como a vida me quer, cínico e com interesses cínicos, dinheiro, estabilidade, um emprego, sexo de mercado, carro, essas coisas todas que nos enfiam na garganta, mas que nos locomove do ponto A para o ponto B, um carro prata sem cor.Hoje minha mãe me disse "E você, quando vai começar a ganhar dinheiro, quando vai ser responsável?". Como aquela pergunta me cansou, é a mesma pergunta que sempre escutei. Eu sou responsável, responsável pela minha existência mesquinha e restrita a esse pedaço escasso de carne. Quando daqui quinze anos no dia de ano eu for tributário e cotidiano, quando eu for o que querem que eu seja, quando eu andar no meu próprio carro prata sem cor, aí sim, poderei dizer para aqueles que estiverem ao meu lado "A vida não é tão dura assim, vejo os fogos aqui com vocês, pessoas que eu amo" daí ficarei bebâdo, dormirei no sofa ostentando minha barriga petit-borgeouis, e quando dali a mais vinte anos eu estiver aposentado e careca, distante do que era, com filhos crescidos e esposa seca, quando eu for seco e cínico, quando a vida for tão desinteressante e a única coisa que tiver me restado for o prazer dos velhos, aí poderei dizer: "Crianças idiotas, olha como a minha pele não tem mais elasticidade, olha como meu cabelo é branco e como não consigo andar mais direito, infelizmente pra vocês ainda não estou senil, e me manterei firme e forte até que a consoada das gentes chegue e me leve embora, com todo o ressentimento que sinto agora". E assim maldizerei os jovens. Menos as crianças, elas dormiram no quarto de sua avó, numa colcha de veludo como tantas colchas de veludo, assim como dormi também um dia em uma colcha de veludo, e ali, longe do cinismo e do alcool dos adultos, elas vão perder os fogos e vão dormir esperando os fogos e carinhosamente tristes por terem perdido os fogos, desesperadamente os fogos. Mas algo de desconsolávelmente belo ainda vai permanecer, com alguma alegria leal.

Monumento as bandeiras.

Querido Manuel,
quanto tempo não nos falamos. já se passam alguns anos, não? A última vez foi naquela madrigal muito engraçado, imediatamente depois daquela nota de jornal.
A questão é que hoje tenho uma câmera. Sim, uma câmera, e tiro fotos por aí. Mesmo eu tendo mais trabalho revelando o filme do que tirando as fotos. E tudo anda tão igual. Coisa ruim de dizer um fotógrafo. Claro que você me entende, sei que sim. A sua vista pro Beco é a mesma minha cotidianamente vista no ônibus. Coisa a toa.
Mas ando muito tranqueira, um nó todo, cabelo piaçava. Nem me reconheceria. Nem eu nem você.
Enfim, imagino a relevância de coisas escritas a mortos, lidos por ninguém. Muita coisa mudou, você continua o mesmo.


Saudades de ti, Manuel.



Denis.

Polichinelo

Pessoas em linha torta. Ainda inventarão um alcoól chamado samba. Pessoas em linha torta andam com o samba no corpo, dois passos pra direita, mais dois passos pra direita, e um tombo e o chão, fecha os olhos e tudo roda, e ri, e ri. E de fora é tão ridículo, mas o medo do ridículo é a maior das covardias. Uma moça loira, com nariz de papagaio, samba em linha torta, e toma decisões que não tomaria normalmente. A verdadeira posse e a maior promiscuidade é o beijo na boca. E é só um passo.
A embriaguez é um estado filosófico, em que a vodka é metafísica.
Quantas possibilidades amorosas são possíveis? Quantos corpos, que por serem só corpos, poderiam se dar a você? Quantos corpos poderiam se atrair pela sua pupila, por seu ombro, pela sua mão, e por quantos seios, e por quantos olhos pode você se encantar? Se a seleção amorosa fosse puramente sexual, teríamos tantas e tantas escolhas. No entanto, acredito que o encontro amoroso se dá por algo além corpo, e que não está na outra pessoa, se dá por um momento conjunto de carências pessoais.
O encontro amoroso é a saída do estado de angústia solitária, e, em contrapartida, a volta a solteirice é a saída do tédio acompanhado. Numa sucessão de atitudes tão óbvia que é impossível de percebê-la.
Antes, naquela noite, a linda loira com nariz de papagaio, estava triste, e encontrou por aí some charming young man.

Fiquei descalço.

tive uns amores,
vendi os chinelos.