sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

adieu mon concubin

Quando do seu dia de mudança, ..., pensou ali as coisas que tinha vivido. Era uma maneira justa e única de encerrar uma etapa, era a única maneira que poderia se sentir - e imaginou que é assim que todas as pessoas se sentem e que esse seria o mesmo tipo de revisionismo que as pessoas todas fariam, fazem e farão. Então ela observou bem entre janela e armário, entre cama e teto e chão a vida que a passou por ali e que em um momento achou muita e tão logo achou tão pouca. Escondeu-se em significados, em metáforas para aqueles objetos todos, que sem ela não teriam vida, mesmo, em fato, não as tendo vida nenhuma.
O armário ia do teto ao chão, e não sobravam espaços. Era alto e espaçoso o armário, um baú com sua história e maquiagem e roupas e cartas, e que, quando abria, era irremediavelmente para bagunçá-lo. A cama, como geralmente acontece nos quartos, ficava do lado da janela e em frente a um espelho. Era um quarto naturalmente iluminado, mas que via pouco a luz do sol. Era, no dia a dia, banhado sempre pela luz elétrica, mantendo a janela fechada para evitar o muito calor que fazia ali.
Ela via o espelho, a escrivaninha, a TV colocada ao alto, perto do teto, pensava em si, e pensava no mundo. Ela não podia evitar pensar na sua cama de solteiro, com um colchão largo e estrado grosso, com duas grandes gavetas em baixo. Pensou na metafísica da cama, pensou nos vilões que ali se deitaram, e pensou que só poderiam ser vilões, nunca bons moços. Pensou na felicidade que se passou ali, mas que não podia pensar como felicidade, essa nostalgia só a faria se sentir mal. E depois, deixou de pensar um pouco.
Teria que se despedir daquele espaço muito em breve, e sentia que já era tempo. Teve a noção exata e premonitória de que não seria mais feliz naquele lugar, e que só poderia almejar uma vida nova e um novo gosto de tudo.
Não era uma pessoa triste, justamente o contrário, irradiava de si aos outros aquele tipo de benesse inominável que transmitia alegria para quem quer que fosse. E, por isso, não entendia bem o porquê daquela dinâmica que se instaurara em sua vida. Era feliz, tão feliz, mas tão triste, só assim eu conseguia defini-la.
E quando a distância entre a escrivaninha e a porta, entre o teto e o chão, se tornaram pequenas, e quando passou a se sentir sufocada, e que decidiu que aquele espaço era pequeno para si, decidiu fechar a porta de súbito, se imaginar em lugares maiores e mais justos, bons lugares em que a sua vida seria uma boa vida, com trabalho, com música, com luz natural, com amigos, com bons dias e, finalmente, com boas noites.

Um comentário:

Milla.Yoga disse...

Até me vi nesse texto. Parece mesmo parte de um universo feminino.