Quanto mais eu penso em mulheres, em escrever sobre elas, mais algo atávico em mim surge, emerge, com extrema arrogância. Emerge a volúpia, o desenfreio do desejo, penso em seios, quero meter a cara entre pernas sem pudor, abertas a mim sem remorso, quero seios que me alimentem de algo que não é leite, e que não é alimento, mas que me faz viver, pelo menos por hora, pelo menos como motivo de curta duração. Depois terei raiva, de todas elas, maldirei por desinteresse, maldirei por falta de ternura e incompreensão, maldirei pelo muro que separa o que é exclusividade feminina e o que é limitação masculina. Depois não terei mais raiva, e será só uma indiferença cínica e britânica, com uma educação e falsidade européias. E depois de tantos estágios de atuação, depois do primeiro, segundo e terceiro atos, tudo se repetirá, voltarei ao desejo da mulher que se curva a mim em gesto de arco, reclinando-se nua a mim numa reverência invertida, dando-me as costas e o quadril exposto.
Foi assim com Catarina, e Catarina é só um nome mentiroso, coloque aqui dezenas de outros nomes, foram tantas que algum desses nomes provavelmente acertará. Catarina não foi a primeira, nem a última, nem a mais importante, não há nada que a faça verdadeiramente marcante, nem digna de ser narrada, mas é essa desimportância que me faz querer dizer como são as experiências de um homem pouco decente, pouco sensível, cristalizado nos gestos, nos gostos e na ternura. Por que me tornei assim? Não sei. Não me preocupo na improdutiva labuta do escrutínio das neuroses. Não fui acostumado a psicanálise.
Mas digo de Catarina, possuí, como possuí todas, em camas alheias, nunca na minha cama, por uma razão simples, meu quarto sempre está muito empoeirado, e isso não é uma alcova atraente. Apesar que, analisando melhor - e com medo de cair nas análises psicanalíticas - acho que não era só isso. Penso que não podia deixar-lhes tomar pose da minha cama, possuir esse móvel tão simbólico, tomarem a minha cama de assalto, com a vólupia que me tomaram tantas vezes o corpo, seria um atestado de possessão que não permitiria que tivessem. Dou o corpo, pois é inevitável dá-lo, mas a cama, símbolo tanto da minha libído quanto do meu sossego, essa não poderia dar jamais.
E por isso só amei Catarina no mato, em sessões matutinas, as terças e quartas, e as vezes no cinema, nas matinês de sábado.
No cinema sempre se mostrou mais divertido, leve, as matinês sempre tinham poucas pessoas, era um cinema de bairro, cinema esse que as estréias sempre vinham com atraso, as estréias eram velhas de véspera.
Os filmes eram pouco importantes, nunca liguei para as imagens que se passavam na tela, por mais atraentes que fossem, sempre fui com o objetivo da posse voluptuosa, e que, quando tomado pelo desejo da carne, pouca coisa pode desviar nossa atenção. Talvez, só um acidente qualquer ou alguma morte na família desviaria do objetivo incial, algum motivo raro e caro, que, ainda assim, nos faz maldizer o momento inapropriado pra tal fato ter ocorrido, e se, a mãe, a vó, o tio ou o cachorro, não poderiam ter falecido duas horas depois. Pois assim se dá o tesão, sem nem mesmo respeitar o luto. Felizmente no meu tempo com Catarina, ninguém morreu, portanto nunca fui impedido de possuí-la.
2 comentários:
não beba muuuuuuita cachaça
não se esqueça depressa de mim
siiiiiiiiim.
me leve a sério..
(éssa musica é minha).
e porque deixou de amar?
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