sexta-feira, 11 de maio de 2007

Paresseux

É um dia simples de novembro e o céu é claro e só
sem qualidade alguma
As nuvens cobrem o sol e o dia se faz branco
Caminho distante até a cozinha e lavo as mãos na pia
A louça de ontem ainda espera ser lavada
mas o dia claro e branco não me permite
como uma desculpa de melâncolia

Volto a sentar-me de frente a janela e esperar coisa alguma
Abro um livro e não leio, risco no meu braço palavras de consolo
e depois levanto-me, esperando coisa alguma

Ainda é cedo e não há motivação
não há fome, não há gosto,
só uma vontade de passar o tempo
Ocupo-me das tarefas mais banais, encontrando motivação em uma música perdida

folheio páginas a esmo, leio e me surpreendo
alguns cientistas me dizem como confissão sincera
que o tempo não é nada mais que a transformação da matéria
e que antes de tudo, antes do tempo, tudo não passava de uma sopa primordial
até um grande estouro e algazarra
e dalí chamamos universo

e entendo, mesmo na minha ignorância. que dizer antes é errado,
porque se não há tempo então não há antes
ou depois
e que o tempo é mero acaso, e que o primeiro movimento da matéria, uma possibilidade infíma
sem lógica ou propósito algum
ocorreu a singularidade
e tudo partiu daí
e a partir disso existiu um antes, um depois e um agora

e evito pensar, imerso em minha vida, não entendo a importância.
e não entendo as coisas que falo e elas não sobreviveriam ao escrutínio.

e agora é um dia simples de novembro, de céu claro e só
sem qualidade alguma
e me perco em um tempo remoto, pois vivo um tempo irreconhecível
onde dinossauros habitam o planeta, e tudo é selvagem
e não passa da minha infância
e tudo e todos são de plástico.

recordo-me, quânticamente, da minha velhice
sem lógica
recordo-me do tempo vindouro, sabendo o movimento que a matéria fará
um movimento tão obviamente previsível
e de assustadora realidade
que fico apenas conformado

e nesse dia simples de novembro de céu claro e só
sem qualidade alguma
me desligo e penso em alguma outra coisa
ligo o rádio e, em algum lugar que já vivi, alguém canta

"e como uma bossa nova, hoje é triste, e quero ser feliz
enquanto não há felicidade
com tanta ansiedade
vivo por um triz"

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