Tive que começar tudo de novo. Do zero. Essa era a única chance. Um novo começo é o pior dos começos, pois se está tentando corrigir uma tentativa frustrada de algo. Algo que talvez até achasse estar correto. Tento corrigir e começar de novo.
Começo assim portanto.
O primeiro amor é uma desmistificação. Ele serve com o propósito de ensinar o básico e enterrar sonhos infantis de Hollywood. A cultura pop, o cinema, as novelas, as músicas, é justamente o contrário que você aprende e vive. Você vive o cotidiano, o tesão esfria, vira uma doce fraternidade incestuosa, você jura amor eterno e ele não dura mais que um capricho. O segundo amor é mais maduro, porém mais desiludido, daí pra frente tudo se transforma em sexo e companhia, é um amor telúrico, e você se suja na terra que tem aos seus pés. E o décimo amor é o que? Ainda é amor ou uma convenção de sexo? É um trato de covardia?
Penso essas coisas pois penso em Tomas triste na janela...
Mentira, não vejo Tomas, nem Teresa, nem Penélope, Odisseu, nem Teseu e quem quer que fosse, deixando pra trás, pra encontrar Baco.
Mas é uma cena noturna, e é um fragmento de tudo, é um ponto qualquer. E nesse ponto ocorre assim, dois pontos:
Amaram-se vestidos, não sei se é possível amar vestido, parece uma contradição em termos, a nudez parece-me tão essencial. Mas amaram-se vestidos, conservando uma pureza que não era a ele que queria entregar. Não era para ele quem ela teria esperado tanto. Dava a língua, dava o suor, dava a unha, dava o toque, dava o ventre fechado, mas, ainda assim, algum ventre. Queria, sei que queria, mas não podia e não o fez. Tinha um rosto sereno, sereno demais, e, por isso, incompreensível. Parecia feliz, não só satisfeita, não só excitada, em seu rosto não era só a marca e o semblante puro do que só é desejo. Não, era mais, tinha um rosto de felicidade, e por isso me confunde tanto. E depois do quase-amor, feito vestidos, ela deitou-se sobre seu braço com aquele rosto de felicidade enquanto ele lhe era carinhoso. Nesse instante o rosto dela era de felicidade e sono, e ficou assim por algumas poucas horas. É-me estranho porque em todo momento o seu rosto foi de felicidade, de felicidade, e não concebo que tivesse confusão ou outros sentimentos ali. Não vi dúvida em seus olhos, não senti medo na sua postura, mesmo sendo receosa em cada passo, não vi a pura volúpia descontrolada. O seu rosto possuía uma serenidade qualquer e duvido que fosse o inocente descontrole do momento.
Até que, depois de algumas horas nos braços dele, lhe sugeriu que estava na hora de ir.
No outro dia tratou apenas diplomaticamente. Disse assuntos vagos, desimportantes, conversou com a educação dada a conhecidos semi-inoportunos. Foi sempre essa a postura que o tratou por isso a difícil maneira de lê-la.
E nesse ponto os observo, e são todos segredos. Júlia é seu nome, havia me esquecido de mencionar, talvez não fosse importante antes, mas é importante agora, e ela é quem observo agora na janela.
Até que, depois de algumas horas nos braços dele, lhe sugeriu que estava na hora de ir.
No outro dia tratou apenas diplomaticamente. Disse assuntos vagos, desimportantes, conversou com a educação dada a conhecidos semi-inoportunos. Foi sempre essa a postura que o tratou por isso a difícil maneira de lê-la.
E nesse ponto os observo, e são todos segredos. Júlia é seu nome, havia me esquecido de mencionar, talvez não fosse importante antes, mas é importante agora, e ela é quem observo agora na janela.
Acordava, era oito horas, era um dia de domingo e hoje viajaria, estava empolgada, sentia um medo terrível, medo de todas as coisas que podiam dar errado, mas esse medo só a deixava mais contente pela coragem que encontrava pra encarar tudo. Ligou o rádio, era época de carnaval e tocava uma estranha marchinha "sentimentos passam como o vento, são coisas do momento, são chuvas de verão", e encontrava conforto em tudo, a marchinha era como um conselho divino, mostrando que agia corretamente, o medo que ela sentia, junto com a excitação, fazia com que buscasse validação pra seus atos em tudo que via. Sabia a importância que esse dia tinha e como esse dia mudaria todos os outros.
E tinha velhos dezoito anos.
2 comentários:
Os conselhos divinos são os melhores. É a melhor desculpa para ver que temos algum apoio ou concordância com algo que nos é dito e com uma situação semelhante, seja uma música, um filme, uma frase, um livro. A importância que se da mesmo "errando" de que não estamos sós, é reconfortante.
:)
já alimentei o monstrinho.
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