Lembro dos dias de quando eu era criança e sempre no dia de ano íam todos os familiares verem os fogos enquanto eu docemente deitava na cama da minha avó hora antes do momento e sem conseguir me conter e esquecendo daquilo que todos esperavam, eu dormia. Quantas crianças dormiram nos dias de ano enquanto foram crianças, e quando despertas não eram mais crianças, e quando, finalmente, conseguiam ficar acordadas, o rito já não significava mais nada, e já eram todos velhos e o rito era visto com um cinismo de bebida.Quando eu era criança e dormia tão bem no quarto de minha avó, lembro da colcha de veludo e a vontade de permanecer acordado. Hoje sou quase adulto, sem responsabilidades, mas me sentindo pesado, cínico como a vida me quer, cínico e com interesses cínicos, dinheiro, estabilidade, um emprego, sexo de mercado, carro, essas coisas todas que nos enfiam na garganta, mas que nos locomove do ponto A para o ponto B, um carro prata sem cor.Hoje minha mãe me disse "E você, quando vai começar a ganhar dinheiro, quando vai ser responsável?". Como aquela pergunta me cansou, é a mesma pergunta que sempre escutei. Eu sou responsável, responsável pela minha existência mesquinha e restrita a esse pedaço escasso de carne. Quando daqui quinze anos no dia de ano eu for tributário e cotidiano, quando eu for o que querem que eu seja, quando eu andar no meu próprio carro prata sem cor, aí sim, poderei dizer para aqueles que estiverem ao meu lado "A vida não é tão dura assim, vejo os fogos aqui com vocês, pessoas que eu amo" daí ficarei bebâdo, dormirei no sofa ostentando minha barriga petit-borgeouis, e quando dali a mais vinte anos eu estiver aposentado e careca, distante do que era, com filhos crescidos e esposa seca, quando eu for seco e cínico, quando a vida for tão desinteressante e a única coisa que tiver me restado for o prazer dos velhos, aí poderei dizer: "Crianças idiotas, olha como a minha pele não tem mais elasticidade, olha como meu cabelo é branco e como não consigo andar mais direito, infelizmente pra vocês ainda não estou senil, e me manterei firme e forte até que a consoada das gentes chegue e me leve embora, com todo o ressentimento que sinto agora". E assim maldizerei os jovens. Menos as crianças, elas dormiram no quarto de sua avó, numa colcha de veludo como tantas colchas de veludo, assim como dormi também um dia em uma colcha de veludo, e ali, longe do cinismo e do alcool dos adultos, elas vão perder os fogos e vão dormir esperando os fogos e carinhosamente tristes por terem perdido os fogos, desesperadamente os fogos. Mas algo de desconsolávelmente belo ainda vai permanecer, com alguma alegria leal.
terça-feira, 8 de maio de 2007
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