terça-feira, 29 de maio de 2007

Coucher

Virou-se para o marido e disse: ‘Não me tira a dentadura, não me tira a dentadura, por favor.”. Era um pudor que ainda tinha depois de duas décadas casados. “Não me tira a dentadura”. Nunca a vira sem, nunca. E achava aquele gesto a maior prova de feminilidade da sua esposa. Não a dentadura em si, não lhe importava tanto assim, não com tanta intimidade já compartilhada em tanto tempo. Era o pudor. Era o pudor que encantava. Era uma criança pedindo pra não lhe tirarem a dentadura.
Daí ela se deitou, como fizera tanto já. E se amaram em desgraçada compaixão.

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